A fé cristã e o problema do aborto

WhatIsAnAbortion

Introdução

A questão do aborto tem sido discutida em diversas escalas da sociedade, e até mesmo o governo tem debatido sobre a possibilidade da legalização ou não do aborto no Brasil. Muito tem sido escrito e dito por diversas pessoas e nas mais variadas áreas de atuação. Porém, como cristão, tenho visto pouco debate dentro da esfera religiosa, pouco posicionamento, a não ser aquele posicionamento mal pensado, mal fundamentado e de acusação e condenação contra os que praticam tal ato.

Uma matéria da Istoé de Março de 2013 diz que o Ministério da Saúde estima que a cada ano ocorra mais de um milhão de abortos provocados no Brasil, sendo a quinta causa de mortalidade materna no País. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Brasília e o Instituto Anis afirma que, até completar 40 anos de idade, uma em cada cinco mulheres brasileiras fez aborto, e 50% das mulheres que induziram o aborto procuraram atendimento médico depois.

A pesquisa revela que 81% das mulheres que abortam têm filhos, ou seja, chegou-se à conclusão que, na maioria dos casos, o aborto é usado como instrumento de planejamento familiar quando os métodos contraceptivos falham ou são utilizados de forma inadequada. Quanto à religiosidade, 65% declaram-se católicas, 25% declaram-se protestantes ou evangélicas, e 5% seguem outras religiões. No mundo todo, estima-se que cerca de 40 a 50 milhões de mulheres abortam todo ano. Isto corresponde a aproximadamente 125 mil abortos todos os dias, e somente nos Estados Unidos, 22% de todas as gestações terminam em aborto, de acordo com a Perspectives on Sexual and Reproductive Health. Triste realidade!

Contudo, são poucos os cristãos ensinados a pensar e a defender a sua fé quando questionados a respeito destas questões que assolam a cultura. Poucos cristãos possuem uma base bíblica e teológica sólida para se posicionar com relação ao aborto. A pergunta que devemos fazer é: Como a fé cristã nos ajuda a lidar com a questão do aborto? É tendo esta pergunta em mente que eu desejo apresentar de maneira simples, uma visão bíblica e teológica sobre o aborto, e tentar dar uma resposta aos questionamentos da sociedade moderna.

Eu não pretendo trazer uma definição elaborada e longa de todos os tipos de aborto, e muito menos chegar à uma conclusão exaustiva e colocar um ponto final no debate. Meu objetivo é apenas levantar alguns pontos que considero importantes para começarmos a pensar e a discutir o assunto.

De maneira geral, existe o aborto espontâneo, que é aquele que acontece por causas naturais, não provocado intencionalmente, e existe o aborto induzido, que é aquele causado intencionalmente, provocado conscientemente, por motivos diversos. O que há de comum nos dois tipos de aborto? Nos dois, a gestação é interrompida e o feto é morto. Quanto ao aborto espontâneo, não há o que debater, pois ele é causado por motivos naturais, seja uma doença, uma má-formação ou algo do tipo, e que leva à gravidez ao fim. Porém, quanto ao aborto intencional, onde existe uma escolha a ser feita e a mãe escolhe pela interrupção da gravidez (seja qual for a razão) com o consentimento daqueles que realizarão o procedimento, qual deve ser o posicionamento? É correto? É errado? Este tipo de aborto deve ser legalizado? Ou deve ser proibido e criminalizado? Como o cristão deve se posicionar? Como a fé cristã me ajuda a lidar com essas questões?

 Argumentos em favor do aborto

Antes de mais nada, eu gostaria, de maneira breve, apresentar apenas dois argumentos que existem em favor do aborto. Talvez o principal argumento em favor do aborto seja o direito da mãe. Este argumento diz que a mãe tem o direito sobre o seu corpo, o direito de decidir continuar ou interromper uma gravidez, e lidar com as consequências de suas escolhas. A mulher é então, responsável pelas consequências dos seus atos e de suas escolhas sobre o seu próprio corpo, e a legalização do aborto valorizaria a autonomia da mulher e o respeito pela sua decisão livre.

Este argumento também tem sido chamado pró-escolha (pro-choice), e tem crescido em popularidade nos últimos anos. Mas, qual é a diferença entre as posições pró-aborto e pró-escolha? Em termos legais, um voto para a pró-escolha é quase que um voto em favor do aborto. É como se alguém dissesse: “Eu não faria um aborto, mas eu acho que toda mulher tem o direito de escolher por si mesma.” O que estamos dizendo é que a mulher tem o direito sobre o seu próprio corpo de decidir se vai querer levar a gravidez até o fim ou interrompê-la, pelos mais diversos e diferentes motivos.

Um segundo argumento seria o de optar pelo menor dos dois males, ou pelo menos trágico. Ou seja, com a presente restrição e não-legalização do aborto, a única opção é conseguir o aborto ilegalmente, em clínicas clandestinas, sem segurança e que geralmente trazem consequências devastadoras para as mães que se submetem à este tipo de procedimento ilegal. Então, para proteger as mulheres deste tipo de coisa, seria mais viável legalizar o aborto.

Mas a questão é muito mais séria e mais profunda do que pensamos ser. O que causa o aborto são inúmeras escolhas mau pensadas e acontecimentos terríveis ou inesperados (um estupro, o sexo antes do casamento, uma gravidez não planejada, uma família desestruturada…), e que de acordo com a Bíblia, são realidades que têm como fonte primária, o nosso pecado e afastamento do Criador. O que fazer em casos como esses? Acredito que criminalizar muitas vezes, é como tapar o sol com a peneira, pois o aborto vai continuar acontecendo ilegalmente, e a sociedade não estaria, de fato, resolvendo o problema. Por outro lado, legalizar o aborto iria contra todos os princípios cristãos e contra o próprio Criador e Doador da vida.

Em um artigo do Estadão de Abril de 2013, achei interessante o posicionamento do Dom Odilo P. Scherer quando ele diz: “O aborto implica a supressão da vida de um ser humano e esse ato não pode ser considerado direito de ninguém, nem valorizaria a dignidade da mulher. Sabe-se quantas consequências e quantos sofrimentos, inclusive psíquicos, esse ato causa à mulher. O sofrimento de uma gravidez indesejada ou difícil pode ser aliviado e não pode ser equiparado ao dano causado por um aborto, sobretudo porque se trata de uma vida suprimida.”

 Evidências nas Escrituras

Uma das principais razões do existir tantas divergências de opiniões com relação ao aborto entre os cristãos é porque existem poucos textos bíblicos que falam diretamente sobre assunto. Contudo, algumas passagens nos dão alguma luz, e devem ser consideradas:

  •  (1) Êxodo 21:22-24

Se homens brigarem e ferirem uma mulher grávida, e ela der à luz prematuramente, não havendo, porém, nenhum dano sério, o ofensor pagará a indenização que o marido daquela mulher exigir, conforme a determinação dos juízes. Mas, se houver danos graves, a pena será vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé.

Existem algumas interpretações quanto à este texto, porém, seja qual for a interpretação para se aplicar a lex talionis (lei de Talião – “olho por olho, dente por dente”), devemos concluir que Deus valoriza o feto tanto quanto valoriza o adulto, uma vez que a lei de Talião é aplicada quando a criança nasce morta. Porém, não podemos afirmar que o texto fala diretamente à questão do aborto intencional ou induzido que tem-se discutido hoje em dia.

  • (2) Salmos 139:13

Tu criaste o íntimo do meu ser e me teceste no ventre de minha mãe.

Aqui o salmista expressa a proteção, a providência e o cuidado de Deus com relação à criança ainda no ventre da mãe. A preocupação, a bondade e o poder criativo de Deus se estendem à vida antes do nascimento. Davi afirma que Deus criou o mais íntimo de seu ser, e o formou no ventre de sua mãe. De fato, Jeremias 1:5 nos diz que Deus já nos conhece antes de nos formar no útero, e o salmista afirma que “os filhos são herança do Senhor, e o fruto do ventre o seu galardão.” (Salmos 127:3O). A vida ainda na forma de um feto é sagrada e valorosa para Deus. O feto se desenvolve e entra em estágios diferentes da vida após o nascimento, de acordo com a providência cuidadosa de Deus.

 5 Princípios que devem ser considerados

Diante disso, eu gostaria de apresentar cinco princípios bíblicos e teológicos que podem nos ajudar a compreender um pouco do significado da vida humana, afinal de contas, estamos lidando com a vida de um ser humano, e de acordo com o artigo 5o da Constituição Brasileira: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida…” Estes cinco princípios se encontram enraizados na fé cristã e merecem ser considerados:

(1) Deus é o Criador da vida (Gênesis 1-2). Ele é o criador, o doador e o sustentador da vida do universo, das plantas, dos animais e da humanidade (corpo e alma). Homem e mulher foram criados à imagem e semelhança Dele, ou seja, ser humano significa ser imagem de Deus, é carregar dentro de nós a imagem daquele que nos criou. Tanto a mãe que está gravida, quanto o feto em seu ventre, ambos são formados à imagem do Criador.

(2) O Deus Criador é onisciente, pessoal e ama a sua criação (João 3:16). Deus conhece tudo o que Ele mesmo criou, e o ser humano é o ápice de toda criação. Todas as coisas foram criadas pela palavra de Deus, mas o ser humano foi formado com suas próprias mãos, à própria imagem de Deus, e após a criação do ser humano, o próprio Deus soprou vida em suas narinas (Gênesis 2:7).

(3) Cada ser humano é único. Deus opera de maneira criativa e soberana em cada ser humano, seja ele um feto, uma criança, um adolescente, um jovem ou um adulto. Não existe DNA repetido, e esta estrutura genética única é determinada pela união de um gene masculino e um feminino. A mulher grávida carrega dentro de si um ser humano único e pessoal criado por Deus. (Gênesis 1:27).

(4) A verdadeira humanidade é encontrada na comunidade e não no individualismo, pois o próprio Criador disse: “não é bom que o homem viva só.” (Gênesis 2:18). Por causa disso Ele fez do ser humano um ser relacional e comunitário. Desde o ventre da mãe, até o seu falecimento, a vida de alguém sempre vai depender da vida de um outro alguém. O ser humano foi criado para viver em comunhão com outros seres humanos. O bebê que nasce é extremamente dependente da mãe, e em todas as etapas da vida, ele sempre vai depender da comunhão com outros seres humanos, e principalmente da comunhão com Deus.

(5) A fé cristã nos apresenta a verdadeira definição de que é ser humano através da vida de Jesus Cristo, verdadeiro homem e verdadeiro Deus, o Deus que se fez ser homem e veio habitar entre nós (João 1). Em Jesus nós temos o verdadeiro padrão do que é ser humano. Tudo o que pode ser conhecido da vida (padrões morais e pessoais) podem ser aprendidos através do conhecimento de Jesus Cristo. Em Cristo, Deus estava reconciliando a humanidade consigo mesmo (2 Coríntios 5:18-19). Aqui nós podemos ter uma noção do valor do ser humano para o Criador. Em Cristo nós compreendemos o valor que a vida tem.

Portanto, o pensamento cristão é guiado pela firme convicção de que Deus é o criador da vida humana, em todos os seus estágios, e que cada ser humano é criado por Deus de maneira única para viver em comunidade. E em Cristo, nós temos o Deus/Homem perfeito que valoriza e redime a vida. Ser humano, é portanto, definido pela sua relação com o Criador, e é nesta relação que enxergamos a importância e a sacralidade da vida, tanto da mãe quanto do bebê.

Estes cinco princípios não são especulações hipotéticas ou abstratas, mas afirmações verdadeiras e expressões da fé cristã reveladas por Deus nas Escrituras Sagradas, e através destes princípios nós podemos começar a pensar teologicamente à respeito do aborto.

Conclusão

Portanto, de acordo com as evidências bíblicas e a fé cristã, se me perguntarem se o aborto é pecado, minha resposta é e sempre será: sim, é pecado. É a quebra do sexto mandamento: “Não matarás” (Êxodo 20:13). Este mandamento nos ensina que não devemos tirar a vida de ninguém, pois a vida é dom de Deus, e também que devemos fazer de tudo para promover a vida e o bem estar do nosso próximo. Matar alguém é um crime seja antes do nascimento, seja depois. Seja esse alguém um feto, um bebê, uma adolescente, um jovem ou um adulto. Deus é o Criador e o Sustentados da vida, é ele quem dá e só Ele tem o poder de tirá-la.

Sendo assim, qual é o papel da igreja e do cristão diante de tal assunto? É triste ver muitos cristãos condenando, julgando e apontando o dedo para mulheres que passaram pela experiência do aborto. É triste ver cristãos, que se dizem imitadores de Jesus, prontos para acusar e apedrejar aquelas que já praticaram o aborto. É muito mais fácil agir assim! No entanto, precisamos entender que pecado é pecado diante de Deus, e o pecado daquela mulher que praticou aborto não a torna pior e mais pecadora do que eu. Precisamos compreender que o mesmo sangue que foi derramado para a remissão dos meus pecados, também foi derramado para a remissão de todo aquele que crê. O mesmo Cristo que entregou a sua vida em uma cruz para me salvar, também morreu para salvar qualquer tipo de pecador, seja ele um assassino, um ladrão, um mentiroso, ou quem quer que seja.

O aborto é algo muito mais sério e triste do que muitos pensam. É uma decisão dolorida e solitária para muitas mulheres. A maioria das mulheres que decidem abortar não vai para o procedimento com um sorriso no rosto e com prazer no coração. É uma decisão sofrível, pois o pecado dói, o pecado traz consequências horríveis e muito sofrimento. Mas então, qual é o papel da igreja diante do aborto? Gostaria de enumerar apenas quatro:

(1) A igreja deve se posicionar sempre contra o aborto, e sempre em favor da vida. A posição da igreja é e sempre deve ser baseada e fundamente naquilo que as Escrituras ensinam. Os cristãos precisam ser ensinados sobre o valor da vida e o que ela representa para Deus.

(2) A igreja deve acolher as mulheres que passaram pelo aborto, oferecendo a elas amor, atenção e cuidados, seguindo o exemplo de Cristo. Assim como Jesus fez com a mulher pega em adultério (João 8:1-11), ao invés de julgar, condenar e jogar pedras, devemos confrontar o pecado, porém com amor.

(3) A igreja deve ensinar a essas mulheres tudo o que a Palavra de Deus ensina, mostrando que existe esperança em Jesus Cristo. Que a vida é um dom de Deus e que somente Ele governa, sustenta e tem todo o controle das nossas vidas, e que o aborto nunca é a melhor solução, ainda que para muitas mulheres pareça ser a única saída.

(4) Devemos mostrar que, como todas as outras pessoas, elas precisam se arrepender e crer em Jesus Cristo para uma total mudança de vida e uma completa transformação da mente. Elas precisam compreender que somente Cristo pode perdoar completamente o ato que elas cometeram, e que em Cristo elas podem desfrutar de uma vida plena e feliz, não importa a situação em que se encontrem. Somente em Cristo, elas podem ter uma nova chance de recomeçar.

Thiago Machado Silva

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