A Igreja no Antigo Testamento

igreja at.jpgNeste post, vamos olhar para o Antigo Testamento e identificar algumas características do povo escolhido de Deus, antes da vinda de Jesus Cristo.

O primeiro detalhe que devemos observar é que no Antigo Testamento nós não encontramos o termo “igreja”, e é exatamente por isso que muitos tendem a dizer que a igreja só passa a existir a partir do Novo Testamento. Mas como nós cremos em uma teologia pactual, ou seja, o Antigo Testamento e o Novo Testamento fazem parte de um mesmo pacto feito por Deus, cremos também que a igreja existe tanto no Antigo como no Novo Testamento, com características diferentes.

Existem duas palavras usadas no Antigo Testamento que devemos nos atentar e que nos ajudam a entender como a igreja era definida. O primeiro termo hebraico que nós constatamos é קהל (qahal) que quer dizer “reunir”, “juntar” especialmente para propósitos religiosos. Um exemplo de um versículo onde aparece esta palavra é Números 14.5: “Então, Moisés e Arão caíram sobre o seu rosto perante a congregação dos filhos de Israel.” A palavra usada para congregação neste versículo é a palavra qahal. O outro termo é עדה (`edah) que significa “congregação”, “assembleia”. Em Números 14.7 o autor usa a palavra `edah para significar “congregação”: “E falaram a toda a congregação dos filhos de Israel, dizendo: A terra pelo meio da qual passamos a espiar é terra muitíssimo boa.” Algumas vezes nós vemos a junção dessas duas palavras como em Êxodo 12.6: “E o guardareis até ao décimo quarto dia deste mês, e todo o ajuntamento da congregação de Israel o imolará no crepúsculo da tarde.” Em “ajuntamento” nós temos a palavra qahal e em “congregação”, a palavra usada é `edah.

A principal diferença entre o Antigo e o Novo Testamento é que no Antigo, a igreja não está claramente definida e a imagem que nós temos é a imagem de um povo, uma nação escolhida e separada por Deus para representá-lo aqui na terra.  E este povo é o povo de Israel. A igreja do Novo Testamento pode até ter começado no Pentecostes, quando o Espírito Santo desceu sobre os discípulos de Jesus, em Atos 2, mas o povo de Deus nos remonta à Abraão. Um autor chamado Christopher Wright disse que ao pensarmos no povo que Deus criou e chamou para ser agente de sua missão, nós devemos começar em Gênesis 12, com o chamado de Abrão.[1]

Ora, disse o Senhor a Abrão: Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra.” (Gênesis 12.1-3)

Em Gênesis 12 nós temos o chamado e a aliança que Deus faz com Abrão. Neste ponto Deus começa a estabelecer um povo da aliança para si mesmo, separando Abrão de sua terra, e transformando Israel em uma grande nação. Esse chamado de Abraão estende-se à Isaque:

Apareceu-lhe o Senhor e disse: Não desças ao Egito. Fica na terra que eu te disser; habita nela, e serei contigo e te abençoarei; porque a ti e a tua descendência darei todas estas terras e confirmarei o juramento que fiz a Abraão, teu pai. Multiplicarei a tua descendência como as estrelas dos céus e lhe darei todas estas terras. Na tua descendência serão abençoadas todas as nações da terra.” (Gênesis 26.2-4).

E depois, estende-se à Jacó:

A tua descendência será como o pó da terra; estender-te-ás para o Ocidente e para o Oriente, para o Norte e para o Sul. Em ti e na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra. (Gênesis 28.14).

E então, em Gênesis 49, esta aliança é estabelecida a partir dos doze filhos de Jacó, e a partir daí, nós temos a congregação, a reunião do povo de Israel, escolhido por Deus para ser seu povo. Afirmamos, portanto, que, Israel é o povo de Deus do Antigo Testamento, estabelecido através de um pacto, ou aliança, feita pelo próprio Deus. É claro que, neste período, o conceito de igreja não estava plenamente desenvolvido ainda.

A este povo Deus revelava a sua Palavra e sua vontade, profetas eram levantados no meio de Israel, e Deus os disciplinava severamente quando desobedeciam e se afastavam da lei do Senhor. O relacionamento de Deus com Israel era como o relacionamento de um pai com seu filho. De ira, quanto estes não davam ouvidos à palavra do Senhor, e de amor, quando eles, arrependidos, se voltavam para Deus. “Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei o meu filho.” (Oséias 11.1). Israel também era conhecido como o rebanho de Deus: “Dá ouvidos, ó pastor de Israel, tu que conduzes a José como um rebanho; tu que estás entronizado acima dos querubins, mostra o teu esplendor.” (Salmo 80.1).

Em Êxodo 19.5-6 nós vemos que Israel era a propriedade exclusiva de Deus:

Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a minha voz e guardardes a minha aliança, então, sereis a minha propriedade peculiar dentre todos os povos; porque toda a terra é minha; 6 vós me sereis reino de sacerdotes e nação santa. São estas as palavras que falarás aos filhos de Israel. (Êxodo 19.5-6)

Esses versículos bíblicos nos mostram o relacionamento de Deus com seu povo. E esse relacionamento implicava em obediência e compromisso por parte de Israel para com Deus. A congregação de Israel era o povo escolhido de Deus, e em Israel nós temos o início das ideias centrais para entender a natureza da igreja.[2]

A vida do povo de Deus no Antigo Testamento tem como centro o culto realizado primeiro no tabernáculo, e, depois, no templo. A influência e a missão da congregação de Israel no mundo se dava quando eles cultuavam a Deus, quando eles se reuniam para prestar culto a Deus. Os outros povos viam e eram impactados por isso. Através de Israel, Deus torna conhecido seu poder a outros povos e nações. Um exemplo disso é o Salmo 40.3: “E me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor ao nosso Deus; muitos verão essas coisas, temerão e confiarão no SENHOR.” Ao ouvir o cântico entoado pelo povo de Deus, outros povos passarão a confiar no Senhor.

Deus escolheu um povo específico, uma nação, para ser instrumento de propagação das bênçãos e do poder restaurador de Deus para o mundo todo. As nações seriam atraídas para Deus a partir dos israelitas. E nós vemos essa realidade em Salmo 9.11: “Cantai louvores ao SENHOR, que habita em Sião; proclamai entre os povos os seus feitos.” É a partir de Israel, povo eleito por Deus no Antigo Testamento, que nasce a igreja do Novo Testamento, é através dos israelitas que Deus propaga seu propósito redentor e restaurador. A igreja do Novo Testamento, e a igreja de hoje, teve início com uma nação, a nação de Israel, eleita por Deus para ser seu povo.

Thiago Machado Silva


[1] WRIGHT, Christopher. The Mission of God: Unlocking the Biblie’s Grand Narrative. InterVarsity Press: Illinois, 2006, p. 189.

[2] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica, e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 945.

Um comentário em “A Igreja no Antigo Testamento

  1. muito bom argumentação sobre igreja no antigo testamento, pastor só batista mais creu na aliança isso causo muitas polemica em nossa dominação.

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