Bandeirantes da fé

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CHAVES, Maria de Melo. Bandeirantes da fé. São Paulo: Cultura Cristã, 2008.

Maria de Melo Chaves, filha de Manuel Joaquim de Melo e neta de José Joaquim de Melo, acompanhou de perto aqueles que deram nome ao seu livro: “Bandeirantes da fé”, e com autoridade de quem vivenciou e presenciou os acontecimentos daquela época, de fato, ela fez parte desta linda história, e nos escreve com muito zelo e simplicidade sobre estes cristãos que segundo ela “enfrentaram toda sorte de penúria e dores para nos legar uma igreja evangélica promissora e ativa”.

Seu grande objetivo com esta obra é mostrar, na vida destes bandeirantes, e de qualquer crente que trilha os caminhos de Jesus, que a oração é a principal arma que temos em Cristo. E foi a oração que permeava a vida destes bandeirantes da fé que os fortaleceu e assim deixaram um enorme legado para a igreja brasileira.

Maria de Melo inicia seu livro contando sobre a infância. Seu avô José Joaquim de Melo era muito correto, metódico e trabalhador, e criou seus filhos sob rígida disciplina de atividade e hora. Em sua casa, todos tinham que trabalhar. Viviam em um lar pobre, mas José Joaquim exerceu grande influência sobre toda a família, criando-os e educando-os com muita honra e trabalho duro.

A família de José Joaquim de Melo também era muito religiosa, todos católicos fervorosos, mas isso começa a mudar quando David, tio de Maria de Melo Chaves, muito inteligente, começa a observar a vida de um padre da cidade, e tal observação o levou a certa descrença, pois não conseguia conciliar o que o padre pregava com a maneira que ele vivia. Até que ganhou de um amigo chamado José Quirino, um Novo Testamento, e lendo este texto da Escritura Sagrada, seus olhos se abriram, e depois de um conflito com o padre, rompeu com a igreja católica.

Tio David começou a estudar as Escrituras, e depois de algum tempo, ele, sua esposa Maria Isabel e as filhas Marinha, Gertrudes e Isabel foram recebidas por profissão de fé pelo rev. Carlos Morton, primeiro pastor da Igreja Presbiteriana de Araguari. O rev. Morton nem imaginava os frutos que mais tarde surgiria daquele abençoado trabalho e que daquela família, muitas igrejas e congregações viriam à existência. A família de David e a do José Dornelas começaram a fazer reuniões juntos, em suas casas, todos os domingos.

Juntamente com esta maravilhosa obra, vieram as perseguições e tribulações. Maria de Melo conta que o primeiro a se levantar contra a família de David foi seu avô, católico fervoroso e que não admitia o protestantismo, dizendo ser doutrina do diabo. Ele ficou muito bravo com a conversão da família de David, e enquanto isso, nascia em Araguari uma congregação de cristãos, filha da Igreja Presbiteriana, que seria, mais tarde, um dos muitos abençoados trabalhos de propagação do evangelho nos sertões de Minas.

Por causa do ódio que o avô tinha do protestantismo, e de sua intensa perseguição ao David, a harmonia da família já não era como antes, e o pai de Maria de Melo, Manuel Joaquim de Melo, resolveu logo adquirir um terreno à margem do rio Perdizes, começou a trabalhar e a se virar sozinho, distante umas quatro léguas do velho Joaquim de Melo. Ali ele arranjou uma noiva, Maria Eulina, com quem se casou mais tarde.

Em um dos encontros de Manuel Joaquim de Melo com David, eles conversaram sobre a religião protestante que David estava seguindo e Manuel interessou-se pela Bíblia dos protestantes. David o presenteou com um Novo Testamento, e sem seu pai, o velho José Joaquim saber, Manuel começou a ler a Bíblia. Com a leitura deste Novo Testamento, algumas coisas ficaram claras, e alguns erros da igreja romana se esclareceram. Até que no dia 30 de Maio de 1897, Manuel Joaquim de Melo, filho do grande perseguidor do protestantismo, se converteu e abandonou a Igreja Católica Apostólica Romana.

Depois dessa atitude de Manuel e sua esposa, eles foram abandonados por muitos familiares que não aceitavam a religião protestante. Os vizinhos os repudiaram, foram taxados de cúmplices de Satanás e amaldiçoados. Mas mesmo assim, permaneceram firmes no propósito de conhecer mais o livro de Deus. E apesar de todas as dificuldades, depois de uma conversa com o rev. Morton, de ouvir um sermão sobre o cego Bartimeu e cantar o hino 111 dos Salmos e Hinos, Manuel Joaquim, pai de Maria de Melo, no dia 15 de Julho de 1898, foi recebido à comunhão da Igreja Presbiteriana, e o evangelho seguia avançando sertão adentro.

Repentinamente, Manuel adoeceu, e por falta de médicos na região, acabou ficando pior, quase falecendo. Aos pouco, o pai de Maria de Melo melhorava, movimentava-se com dificuldades por causa de um reumatismo. A família toda, depois de se render aos pés de Jesus, passou por um deserto muito grande, mas cada vez mais, oravam com fé e fervor. E Deus jamais os desamparou.

Rev. Morton voltou à região, ficando hospedado na pequena casa de Manuel e sua família. Dessa vez, a esposa de Manuel fez sua profissão de fé juntamente com o tio Tonico. Nas palavras da própria filha Maria de Melo, “papai e mamãe continuavam, porém, firmes na fé. Liam diariamente as Escrituras e oravam com fervor. Foram crentes de oração.” (p. 55), apesar das coisas não irem muito bem financeiramente e também na saúde do sr. Manuel. A família toda enfrentou uma provação muito grande.

No ano de 1903, rev. Morton faleceu, e em seu lugar, foi enviado o rev. Roberto See, que visitou toda a região e bons frutos foram produzidos de seu ministério. O tempo se passou e as coisas melhoraram para a família de Manuel, e em toda a luta para melhorar a situação, Manuel e Maria Eulina encontravam forças na leitura da Palavra de Deus e na oração. Agora, alguns familiares começaram a se aproximar, e já não estavam tão isolados quanto no início. Os únicos que permaneciam irredutíveis e intolerantes ao protestantismo era o avô de Maria de Melo, pai de Manuel, e a madrinha Lina.

Depois de quase dez anos de casados, Manuel e Maria Eulina oravam por um filho, e foi nessa época que nasceu Maria de Melo, autora deste livro “Bandeirantes da Fé”, e desde cedo foi criada nos caminhos do Senhor, aprendendo a tomar responsabilidades. Seus pais logo trataram de correr atrás dos detalhes para o batismo da pequena. Neste período a Igreja Presbiteriana do Brasil vivia um momento conturbado com a grande cisão que deu origem à Igreja Presbiteriana Independente, movimento que foi liderado por Eduardo Carlos Pereira.

“As amizades iam crescendo, o evangelho ganhando simpatizantes com o testemunho daquele consagrado casal de crentes pouco ou quase nada instruídos, mas que tinham, iluminando os seus passos, a luz sempre brilhante do evangelho de Jesus. E com essa luz aclaravam o seu caminho e mostravam a estrada da salvação para os outros.” (p. 66). Através do testemunho e da vida deste casal, muitos se converteram, e, aos poucos, foi se formando um humilde e consagrada congregação de cristãos.

Um novo pastor foi enviado para a região, um jovem recém-formado chamado Alberto Zanon. Foi um grande evangelista no Triângulo Mineiro e um excelente trabalhador. Um autêntico bandeirante da fé. Ele foi um pastor muito amado por todos, amigo da família e sempre presente na comunidade. Todos os outros sete filhos de Manuel e Maria Eulina e irmãos de Maria de Melo, nasceram durante o pastorado de Zanon. A obra que esse pastor realizou no sertão de nosso país foi grandiosa e extremamente valorosa.

Quando Maria de Melo fez 9 anos, uma das maiores preocupações de seus pais era a educação de seus filhos. Não havia professores nas imediações da fazenda onde moravam, e a saída que Manuel encontrou foi enviar suas filhas para Araguari, onde elas ficariam em um internato, onde poderiam estudar com mais qualidade e aproveitamento. Se adaptaram logo à nova vida na cidade. Porém, devido a algumas dificuldades na fazenda, e depois de muita oração, a família entendeu que as filhas deveriam voltar para ajudar os pais com o trabalho. O rev. Zanon já não estava mais lá, havia sido transferido para Cabo Verde no sul de Minas. Maria de Melo, de volta à fazenda, foi ajudar a mãe a tomar conta da loja. O pai cuidava da lavoura, e aos poucos, foram organizando as coisas novamente.

Depois de haver organizado a vida na fazenda, Manuel Joaquim de Melo, em uma viagem até Lavras para resolver questões médicas, ficou conhecendo o dr. Samuel Gammon, sábio professor e educador emérito. Encantado com o dr. Gammon e com o instituto Gammon, pela sua maravilhosa obra de instrução da mocidade evangélica na cidade de Lavras, logo pediu a matrícula para suas filhas continuarem os estudos. O Instituto Gammon é um tradicional educandário evangélico da Igreja Presbiteriana, e já naquele tempo era dividido em três seções: o Colégio Carlota Kemper para meninas, o Ginásio de Lavras e a Escola Agrícola. Esta escola, foi então, nas palavras da própria Maria de Melo, “a resolução do problema educativo para nossa família. Ali estivemos todos, desde a mais velha, até Jessé, o caçula. Ali, aos pés dos bondosos mestres, recebemos, não só o ensino intelectual, mas também o conhecimento das coisas espirituais, que nos devia guiar pela vida afora. Num período de dez anos, papai sustentou oito filhos na abençoada casa de ensino.” (p. 84).

Manuel tinha um propósito com a educação de seus filhos. Ele queria que todo aquele conhecimento que eles adquiriam em Lavras, fosse compartilhado com familiares e vizinhos, para que eles ficassem conhecendo “as riquezas incompreensíveis de Cristo”. Este era o sonho de Manuel, e Deus o abençoou sobremaneira. No ano de 1935, dentro de sua fazenda, existia uma animada igreja com mais de duzentas pessoas congregando e louvando a Deus. A escola dominical também foi nascendo aos poucos, com o trabalho de Maria de Melo, agora formada pelo Instituto Gammon.

O trabalho seguiu avançando pelo estado de Minas Gerais. Os alunos iam se multiplicando e a religião protestante crescia. Por causa disso, logo o padre Anastácio Dalla Riva, vigário da cidade de Monte Carmelo, ficou incomodado com o avanço protestante, e tratou logo de criar caso com os evangélicos da cidade. Porém, o evangelho seguia, e a cada visita do rev. Alva Hardie, responsável pelo trabalho presbiteriano na região, tinha sempre uma pessoa para receber em profissão de fé. Também na cidade de Patrocínio, o trabalho de Alva Hardie cresceu e floresceu e o progresso da Igreja Presbiteriana se dava de maneira rápida, apesar das perseguições movidas pelos sacerdotes católicos-romanos, procurando, por todos os meios atingir os crentes evangélicos.

Em Patrocínio, Maria de Melo se apaixonou por Carlos, ambos cursavam o instituto bíblico, e se casaram no dia 26 de Dezembro de 1928. Ficaram mais dois anos trabalhando no colégio em Patrocínio, e então decidiram ir juntos para o Seminário Presbiteriano em Campinas, onde Carlos se matriculou para estudar. Com muitas dificuldades financeiras, chegaram até Campinas com a certeza de que aquela era a vontade do Senhor. Rumaram para a cidade de Patos, onde Carlos exerceria as funções de evangelista e diretor do Instituto Sul Americano a Maria de Melo também iria lecionar. Estavam prontos para novas lutas e novas experiências.

De início, não havia em Patos nenhuma igreja organizada, e os cultos eram realizados na residência do sr. João de Barros, um dos primeiros crentes da cidade. De acordo com Maria de Melo, João de Barros “foi o homem que conservou acesa a luz do evangelho em Patos, por muitos anos.” (p. 136). Quando o casal Maria de Melo e Carlos chegaram na cidade, em 1932, encontraram uma igreja funcionando, fruto da perseverança de João de Barros. Eles foram residir no Instituto Sul Americano. No primeiro culto que participaram, foram conhecer os crentes da cidade, e para o espanto do casal, a maioria dos crentes eram homens formados e de destaque na sociedade local. Era uma igreja formada, em sua maioria, de doutores.

Ali em Patos, o casal passou a maior parte de suas vidas. Tiveram seus outros dois filhos, e passaram por lutas, mas também por experiências inesquecíveis. Em Junho de 1934, os pais de Maria de Melo foram visita-los. Seu pai, Manuel Joaquim de Melo, volveu os olhos para o passado, relembrou a luta em favor de sua gente, e seu coração ficou em paz. Sua família estava educada, e todo aquele esforço havia valido a pena. Seus irmãos haviam se convertido. Manuel tinha a sensação de dever cumprido. “Tornou-se então, a família Melo, uma das maiores agremiações de crentes evangélicos nos sertões de Minas, hoje espalhados também pelos Estados de Goiás, Mato Grosso e Paraná.” (p. 142).

O avanço do evangelho e da fé protestante se deu em meio à muita luta e perseguição, e nos remonta à Europa do séc. XVI, no período da Reforma Protestante, quando Martinho Lutero e outros reformadores, compreendendo as Escrituras Sagradas, rompem com a Igreja Católica para propagar o cristianismo, e em meio a muita perseguição do catolicismo, o evangelho continuou avançando e levando muitas pessoas à Cristo. Ao olharmos para a Reforma Protestante da Europa do séc. XVI, vemos claramente a mesma coisa acontecendo no Brasil, nos sertões do interior de Minas Gerais, na vida da família Melo. A grande diferença era a realidade socioeconômica da Europa, bem mais desenvolvida e com um poder financeiro muito maior do que o sertão mineiro subdesenvolvido e com muita pobreza.

A lição que tiramos é que o evangelho não escolhe realidades socioeconômicas para se desenvolver. A Escritura Sagrada leva a verdade de Deus para os ricos e para os pobres, e por onde o evangelho passa, seja na Europa, seja no interior do Brasil, Deus faz a sua obra e levanta pessoas fiéis e dispostas e propagar a Cristo Jesus, nosso Senhor.

Thiago Machado Silva

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