Lei, graça e obediência

tenCommandmentsWallpaper* Texto escrito para a matéria de Teologia Bíblica 1, do curso de Teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, sobre a relação entre lei, graça e obediência.

Walter Brueggemann é professor aposentado na área de Antigo Testamento, nascido em 1933 na cidade de Tilden, Nebraska. Prolífico autor e professor emérito no Columbia Theological Seminary, ele já escreveu mais de 50 livros, centenas de artigos e vários comentários bíblicos. Brueggemann também é pastor da United Church of Christ, em Ohio nos Estados Unidos. Devotou a sua vida no estudo e pesquisa da teologia do Antigo Testamento, e hoje é um dos mais notáveis teólogos desta área. O artigo que é objeto deste trabalho foi escrito por ele com o nome de “The Covenanted Self: Explorations In Law And Covenant“.

A tônica do artigo de Brueggemann é a relação entre dois termos que, geralmente, são vistos e interpretados como termos opostos ou dicotômicos: lei e graça. O objetivo do autor é ajudar o leitor a compreender a dinâmica entre lei e graça.

Alguns fazem uma certa dicotomia entre os termos lei e graça, trazendo um prejuízo enorme ao lidarmos com este tema. As pessoas que fazem tal dicotomia entendem que a “lei” é algo que os judeus deveriam guardar e o Antigo Testamento é um livro sobre leis, regras e mandamentos que no Novo Testamento foi superado e substituído pelo “evangelho”. Fazendo isso, desconsidera-se a aliança entre os testamentos, a teologia pactual não é levada em conta, afinal de contas, lei e graça são dois termos antagônicos, que se opõem um ao outro.

O grande prejuízo que esse entendimento traz é que, ao fazer essa dicotomia, as pessoas entendem que as leis não devem ser obedecidas, pois o evangelho já superou todas elas, e o relacionamento com Deus agora é baseado na liberdade, e não há aquela preocupação em guardar e obedecer os mandamentos de Deus contidos no Antigo Testamento.

Mas nós precisamos nos atentar para o fato de que, conforme diz Brueggemann, “a aliança com Deus conosco é baseada em mandamentos e Deus espera ser obedecido.” A Torá foi dada por Deus para ser guardada, para orientar e guiar o povo, e existem consequências para a desobediência. Precisamos levar a sério os mandamentos de Deus, ainda que vivamos sob o evangelho, na era da graça. A graça não nos isenta das responsabilidades e da obediência aos mandamentos santos de Deus. Brueggemann nos lembra que o próprio Jesus resumiu os mandamentos de Deus em “amar a Deus” e “amar ao próximo”, e ele não nos isentou de obedecer a esses mandamentos. Pelo contrário, o Filho de Deus nos disse em João 14.21: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado por meu Pai, e eu também o amarei e me manifestarei a ele.” Ou seja, se amamos de fato a Deus, teremos prazer em guardar e nos esforçar em guardar os seus mandamentos, a lei de Deus.

Como o próprio Brueggemann afirma: “quando o Santo é desejado de forma suprema, a obediência se torna alegria e o dever se torna deleite.”

Apesar de sermos seres humanos, pecadores e incapazes, por nós mesmos, de cumprir e obedecer as leis de Deus, o próprio Deus enviou seu Filho Jesus Cristo, não para acabar com elas, mas para cumpri-las, para obedecê-las, e nos capacitar, com a presença do Espírito Santo, para que nós pudéssemos obedecer e ser fiel aos mandamentos do Pai. Embora o cristão não esteja sob a lei como um meio de aceitação por Deus, ele deve buscar obedecer a vontade de Deus em conformidade com o padrão estabelecido na lei. O dom da justificação leva ao reconhecimento da tarefa da obediência. Primeiro, o cristão é justificado pela obediência de Cristo, e depois, ele é habilitado para cumprir a lei de Deus.

Entendemos, portanto que, lei e graça não se opõem, mas se completam. A lei nos leva a reconhecer nossa condição de pecadores e da nossa necessidade de um Salvador, e a graça nos capacita a obedecer a Deus. Só a graça é capaz de fazer tal mudança. A lei podia declarar a vontade de Deus, mas não podia conceder poder para fazer essa vontade. A lei podia mostrar a pecaminosidade do ser humano, mas não podia libertar o homem da escravidão desse pecado. É por isso que a pessoa podia estar sob a lei, reconhecer sua autoridade, e mesmo assim estar sob o controle do pecado. É por isso que precisamos da graça para cumprirmos a lei. Dois termos que se completam, e um não pode ser entendido sem o outro.

E quando a graça de Deus liberta os que estão presos pelo pecado, um novo poder interior é concedido a essas pessoas, capacitando-as a cumprir o que não podiam antes. Ou seja, sem a graça, é impossível cumprir os mandamentos de Deus que existem na lei.

Thiago Machado Silva

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