Sobre a vida devocional

Devotional-1A vida devocional é algo importante para todo cristão, a fim de mantê-lo sensível à voz de Deus e mais humano, principalmente quando a sua tendência é ficar mais frio e religioso conforme o tempo de igreja aumenta. Uma das causas disso acontecer, é a falta de vida devocional, pois o cristão precisa se alimentar diariamente da Palavra de Deus para viver a vida cristã no seu dia a dia.

Desde os tempos bíblicos, essa já era uma preocupação, principalmente de Tiago, quando ele escreve no capítulo 1, versículo 22: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.” Pois, de acordo com o próprio Tiago, aquele que é apenas ouvinte da palavra é como aquele homem que contempla o seu rosto em um espelho, e quando se retira, logo se esquece de como era a sua aparência. Aquele que considera atentamente a lei de Deus e a pratica, esse será bem-aventurado no que realizar. A teologia que é aprendida na igreja deve ser praticada durante a semana. É por isso que Hermisten Maia (2009) afirma que “a teologia está relacionada à vida prática” (p. 225), e McGrath em sua obra “Teologia para amadores” (2008) diz que:

 A teologia nada tem a ver com isolamento frio e clínico, nem com fórmulas e frases secas e vazias. O que importa nela é como aprender mais sobre o Deus vivo e amoroso, e servir-lhe por inteiro com a mente e o coração. Para aprender mais sobre Deus é preciso estar mais perto dele e buscar com afinco o dia em que finalmente estaremos com ele. (p.69)

A vida do cristão é uma caminhada diária de busca por Deus em oração, e fortalecimento em Sua Palavra. Ter uma vida devocional é isso.

Ao olhar para a história, percebe-se que tanto a teologia como a vida devocional eram temas levados muito à sério. Os chamados Pais da Igreja, que são aqueles autores que escreveram entre o final do séc. I e o final do séc. VIII, na chamada “Era Patrística” (HAYKIN, 2012, p. 14)) eram homens de um alto grau de intelectualidade, e ao mesmo tempo de profunda devoção. O período patrístico foi um período onde homens de Deus se levantaram para lutar contra as heresias e a favor da igreja e do cristianismo. “Todos os principais ramos da igreja cristã – incluindo as igrejas anglicana, ortodoxa, oriental, luterana, reformada e católica romana – consideram o período patrístico como um marco decisivo na evolução da doutrina cristã.” (McGRATH, 2008, p. 42).

Um exemplo é o de Antônio, mais conhecido como Santo Antão, um dos Pais da igreja que viveu entre o séc. III e IV. A história conta que ele se isolou em um deserto no Egito, por um período determinado de tempo, a fim de exercitar sua vida devocional através da meditação, oração, estudo das Escrituras e reflexão (FOSTER, 2008, p.54). Ele entendia a importância de estar em um relacionamento vivo com Deus. Depois de um tempo, ele volta à civilização para agir e fazer tudo o que estava em seu coração, conectado com a vontade de Deus e fortalecido pelas Escrituras.

Um outro exemplo é o de Agostinho de Hipona, que possuía uma ampla formação em retórica e oratória, um homem que se dedicou aos estudos, escreveu muitas obras, mas que ao mesmo tempo buscava a Deus com todo o seu coração. Uma curiosidade é que “uma parte fundamental da contribuição de Agostinho é o desenvolvimento da teologia como uma disciplina acadêmica” (McGRATH, 2005, p.47). Richard Foster, ao escrever sobre esse Pai da igreja, afirma que ele procurava “ser tão eloquente em conselhos evangélicos de Cristo pelo modo como vivia quanto era em suas palavras do púlpito” (2008, p. 274). Agostinho vivia na prática toda a teoria que ele sabia. Agostinho de Hipona era alguém que se preocupava em equilibrar seus conhecimentos com a vida devocional. Ele entendia que deveria estar em um relacionamento constante com Deus para não perder o zelo e o fervor, tornando-se uma pessoa fria para com Deus e para com as outras pessoas.

Após o período patrístico, pode-se constatar ainda a preocupação com a vida devocional na vida dos reformadores. Em João Calvino, percebe-se essa mesma preocupação de ter certo equilíbrio entre a teologia e a vida devocional, a teoria e a prática. Apesar de ser um dos maiores teólogos e eruditos que o mundo já teve, ele era alguém que se preocupava intensamente com a devoção. Hermisten (2009) ao escrever sobre Calvino afirma que ele não era somente um conhecedor teórico das Escrituras, mas a oração permeava toda a sua vida de estudo e todo o seu trabalho. Antes de cada palestra e cada sermão, ele fazia uma breve oração, e ao terminar seu trabalho, outra oração era proferida. “Devemos suspirar sempre e orar sem cessar, mantendo o nosso coração elevado a Deus” (CALVINO, 2006, p. 135).

Nas palavras do próprio Calvino, comentando o salmo 66.3, diz que “nada tende a produzir mais a devida reverência a Deus do que quando nos sentamos em sua presença.” (CALVINO, v.2, 2009, p. 623). Ou seja, é necessário assentar-se constantemente e diariamente diante de Deus em oração e devoção a fim de conhece-lo melhor e isso produzirá reverência para com sua majestade. Esse assentar-se diário na presença de Deus é o que é chamado de vida devocional. E quando a vida devocional acontece, dá-se o conhecimento de Deus, e o conhecimento de Deus, de acordo com Calvino, leva o homem à reverência e ao temor de Deus (CALVINO, 2006, v. 1, p. 59).

O grande problema que tem se perpetuado até os dias de hoje, é que, a partir do séc. XVIII, a teologia começou a ser vista como disciplina teórica e não prática, como era antes, principalmente com o surgimento da Summa theologiae (Suma Teológica), de Tomás de Aquino. Aquino defendia que a teologia era uma disciplina investigativa e teórica, e essa ideia foi ganhando cada vez mais força. Essa postura incentivava a leitura bíblica com o objetivo de investigação, e não de obediência a Deus. (McGRATH, 2008, p. 178). Os teólogos e estudiosos da Palavra de Deus liam a Bíblia para investigar, pesquisar e fazer ciência, mas não para ouvir a voz de Deus e obedecê-la. O perigo disto é quando as pessoas pensam que apenas conhecer a Bíblia e decorar os versículos já bastam, e não meditam nas Escrituras, não se alimentam dela, não buscam conhecer melhor a Deus e sua vontade através da Bíblia. Pode-se afirmar que vida devocional é um processo de estreitamento da amizade espiritual. É quando a pessoa se aproxima de Deus para conhece-lo, para falar, mas também para ouvir.

Rubem Amorese diz que:

Umas das grandes carências do povo de Deus hoje em dia é a falta de vida devocional, sem a qual todo louvor, toda adoração se torna superficial e deficiente. É como encontrar um amigo de vez em quando. A amizade permanece, mas a intimidade não é profunda, por falta de conhecimento, de troca de ideias, de conversa. Muitas vezes mantemos amizades desse tipo por muitos anos, e isso é bom. Mas não é o ideal, pois são amizades superficiais, embora haja grande simpatia. (AMORESE, 2004, p. 62).

Como tem sido difícil para o homem atual, pós-moderno, apressado e superficial, encontrar o caminho para uma vida devocional compromissada, constante e saudável. O desafio é reencontrar o prazer da vida devocional, da intimidade, da busca por Deus em oração e leitura de Sua Palavra, com profundidade e sem superficialidade.

Thiago Machado Silva

Um comentário em “Sobre a vida devocional

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s