Cosmovisão: interpretando a realidade

creation-fall-redemption-restorationEste post contém minhas anotações introdutórias de algumas aulas do curso de Cosmovisão Reformada que tive no meu último ano de seminário, em 2012. Aqui está apenas uma introdução à cosmovisão reformada, mas eu espero que ajude você, assim como tem me ajudado, a compreender um pouco mais sobre a maneira bíblica de ler e interpretar a realidade em que vivemos.

Introdução

Cosmovisão literalmente significa “visão do cosmos” ou “visão do mundo”, e choques culturais ilustram bem as diferentes cosmovisões, as diferentes formas de enxergar o mundo que existem em diferentes partes do mundo. Ronald Nash diz que “uma cosmovisão é, portanto, um esquema conceitual que contém nossas crenças fundamentais [acerca de Deus, da metafísica, da epistemologia, da ética, e da antropologia] sendo o meio pelo qual interpretamos e julgamos a realidade“. Albert Wolters afirma que cosmovisão “norteia a maneira como se busca o conhecimento“. Philip Graham Ryken define cosmovisão como sendo a “estrutura do entendimento que nós usamos para fazer sentido do nosso mundo“. Ou seja, podemos afirmar que a cosmovisão é, portanto um comprometimento, uma orientação fundamental do coração (Provérbios 27.19, 4.23). O homem é reflexo do seu coração, e a sua cosmovisão é o seu instrumento interpretativo da realidade. Ela integra todas as nossas crenças formando um sistema de interpretação do mundo em que vivemos, e é por isso que inconsistências na cosmovisão geram crise. E por fim, a nossa cosmovisão é a base das nossas ações e decisões; ou seja, além de interpretar a experiência diária, ela também é moldada pela experiência diária, afetando a nossa maneira de agir e tomar decisões.

O mundo em que vivemos está cheio de diferentes cosmovisões. Alguns exemplos tirados do livro “O universo ao lado” de James Sire são:

Teísmo cristão (Deus se relaciona com o homem e vice-versa). Noção de Transcendente e Imanente. Oferece o que há de necessário para a prática da ciência. Se o Criador criou leis, eu vou usar a ciência para descobri-las.

Deísmo (Final do séc. 17, início do séc. 18. Fruto do Iluminismo. O relacionamento entre Deus e o homem é cortado). Concorda com a transcendência, mas tem dificuldades em lidar com a imanência de Deus. O Deísmo é anti-sobrenaturalismo. É no Deísmo que surge a ilustração do Relógio ordeiro (Deus é o relojoeiro que cria o relógio, dá corda nele e se ausenta, deixando-o funcionar mecanicamente). O mundo é perfeito, bem arquitetado por Deus. A ciência se desenvolveu muito. O mundo não sofreu os efeitos da Queda. Quando se corta o relacionamento de Deus com o mundo, chega um momento em que não se precisa mais de Deus.

Naturalismo (Nasce no séc. 18 e ganha forças no séc. 19. As coisas acontecem por acaso. Deus foi cortado do relacionamento com o homem e dos acontecimentos). O Naturalismo tem explicação para tudo, pois o universo é um sistema fechado, e Deus é descartado.

Nihilismo (Negação de muitas coisas, valor humano, valores éticos…) É um naturalismo extremado, e tem Nietzch como uma das grandes vozes. De acordo com esta cosmovisão, Deus está morto.

Existencialismo (Resposta ao sufoco do nihilismo. A humanidade é significante). Ela buscar dar razão à existência humana. O existencialismo diz: “Eu não creio em destino, e sou eu que faço o meu destino”. De acordo com James Sire, existem 2 vertentes do existencialismo: Naturalista (Deus não existe. Está preocupado num mundo objetivo mas de forma naturalista) e Teísta (Deus existe. Crê na soberania e na transcendência de Deus, mas tem dificuldade em entender a Bíblia como Palavra do próprio Deus.

Monismo panteísta oriental. Deus e o mundo se confundem. Entende Deus como uma energia, força. Nós estamos a serviço da natureza, ou seja, há uma inversão do que Deus originalmente planejou (“Dominai”, “sujeitai”). Ênfase no Nirvana: esvaziar a mente e se perder no todo que é divino, que é Deus. Meditação para sair da relidade.

Nova Era (Adaptação de conceitos orientais para o ocidente. O homem se torna um deus). No ocidente há um individualismo muito grande. Quem tem que ser destacado não é Deus, mas a alma. A alma é Deus, portanto, deve-se procurar Deus no seu interior. O “eu” é a relidade fundamental, e o uso de entorpecentes é comum para enxergar as coisas de uma outra forma e atingir outros níveis de realidade. A Nova Era busca uma saída para o sofrimento.

Pós-modernismo Guinada epistemológica (conhecimento). Essa cosmovisão crê em absolutos, mas não consegue apreendê-los. Deus e religião não são objetivos, mas construtos da realidade.

Diante de todas essas diferentes perspectivas e cosmovisões tentado explicar o mundo em que estamos inseridos, a Bíblia também nos fornece a maneira correta de enxergar e interpretar a realidade. A cosmovisão conforme apresentada pela Teologia Reformada é a maneira bíblica revelada por Deus para compreender, interpretar e agir no mundo em que vivemos. A Cosmovisão Reformada, de acordo com Romanos 14:13-23 entende que até o ato de comer é um ato religioso, e em tudo o que fazemos, expressamos compromisso com Deus e amor pelo próximo.

A Cosmovisão Reformada nos apresenta 4 pilares históricos que devem ser aplicados em todas as esferas da vida, e não somente nas atividades eclesiásticas (atividades da igreja), mas em todas as áreas. São 4 pilares que nos ajudam a ler a interpretar o mundo em que vivemos, e a agir e tomar decisões que honrem a Deus, com relação à qualquer assunto. Essas 4 pilares são: criação, queda, redenção e consumação.

Criação

Ordem Criacional. Todas as estruturas da sociedade são, por natureza, boas: ciência, comércio, arte, política, educação. Por isso os reformadores tratavam toda profissão como sendo uma “vocação”. Estrutura: potencial cultural ordenado por Deus e as leis que o regem (Isaías 28.23-29). Deus estabeleceu a estrutura responsável pelos governos mundiais e locais (Romanos 13.1-2). Deus estabeleceu a estrutura do matrimônio e da Família (Efésios 5.22-33 até 6.1-4). O Mandato Cultural é derivado do conceito bíblico de domínio do homem sobre o restante da criação (Gn. 1.26-28; Sl. 8.5-6). Esse domínio não significa abuso dos recursos, mas mordomia responsável; implica em descobrir e explorar as potencialidades da criação. É por isso que os cristãos não podem restringir sua fé à esfera da religião. Direção: participação humana direta no manuseio desta estrutura. O grande problema com a entrada do pecado no mundo foi que o ser humano passou a pegar tudo que Deus fez (estrutura) e a usar para o que é mal, errado (direção). Tudo o que Deus criou é bom (estrutura), a diferença é que se isso vai ser direcionado para o bem ou para o mal (direção).

Queda

Como nossa cosmovisão não é dualista, compreendemos não só a bondade da criação, mas quão abrangente é o mal uso da criação. A Queda diz respeito a tudo o que fazemos em desobediência com relação a ordem criacional. O pecado é muito mais profundo e abrangente do que imaginamos. A depravação não é apenas em certas esferas da vida, mas ela é TOTAL. A desobediência de Adão teve efeitos cósmicos (Gn 3.19; Rm 8.20-22). As estruturas da sociedade (estado, família, sexualidade, arte, tecnologia, etc.) foram corrompidas pelo pecado. E é por isso que a teologia reformada tem uma explicação do por quê o mundo está indo de mal a pior. Toda opressão, pobreza, divórcios, guerras têm uma explicação. Nós não nutrimos uma visão utópica da sociedade nesta vida, como fazem os marxistas. O pecado é visto como um Parasita: O reino das trevas sobrevive das estruturas do reino da luz; não vive à parte deste. Ele só sobrevive enquanto se aproveita do material do reino de Deus. Ele sempre trabalhar com capital emprestado. O mal é distorção do bem, não tem existência própria. O pecado muda a “direção“, mas não elimina a “estrutura“. A cultura é algo que procede de Deus, contudo, após a Queda, o desenvolvimento da cultura começou a acontecer de maneira distorcida e desordenada. O mundanismo em que vivemos hoje, por causa do pecado, não é composto de certas atividades, mas sim da corrupção das mesmas.

Redenção

Toda cosmovisão tem: (1) Criação, (2) Queda, (3) Redenção. O que mais as difere umas das outras é a forma de redenção. De acordo com a teologia reformada, a redenção possui um caráter cósmico: Não é apenas redenção de indivíduos, mas de todo o universo criado (Romanos 8.18-23; Cl 1.19-20). Visa restaurar todas as estruturas da criação. Nesse sentido, a salvação é uma recriação. Wolters afirma que não é a volta ao Éden culturalmente falando. Não voltaremos ao estado primitivo tendo que desenvolver cultura novamente. (“Novos céus e nova terra” não é algo totalmente do zero. É restauração, renovação do que foi corrompido pelo pecado). Deus renova, mas preserva aquilo que Ele fez). Redenção é mais amplo do que só cuidar da vida espiritual. É muito mais abrangente. Diante da cultura, o cristão não pode ser crédulo demais, tampouco, cético demais. Não devemos nos alienar, nem nos secularizar. Lembre-se de Paulo em Atenas (Atos 17.16-34): A mente cristã, quando é crítica, funciona como soldado e médico. Soldado: vigilante, combativo. Defende dos ataques de cosmovisões pagãs, evitando que nos amoldemos à elas. Ataca, ou confronta filosofias anti-cristãs (sal na ferida). Médico: prestativo, pacificador. Receita o remédio para os males do mundo. Portanto, é necessário discernirmos entre estrutura e direção. A tarefa reformacional envolve duas coisas: (1) santificar no sentido de purificar (mudança interna) ao invés de consagrar, separar (mudança externa). (2) santificação por intermédio de renovação progressiva em vez de destruição violenta.

Consumação

Vivemos a realidade do “Já e ainda não”. A Redenção já está acontecendo desde a morte e ressurreição de Cristo na cruz, porém ela ainda não foi consumada. A consumação é o completar da redenção, mas não é para esta vida e não é operada pela igreja. Por um lado, a igreja é reconhecida como o sal da terra que retarda a putrefação e total corrupção de nossa sociedade, mas por outro lado, a parábola do joio (Mateus 13.24-30; 36-43) é uma demonstração de que a construção de uma sociedade com a consequente retirada do mal no mundo será uma realização de Deus por intermédio dos seus anjos (isto é, sem a participação do ser humano) e não ocorrerá nesta vida (como é o anseio de muitos seres humanos). A igreja faz parte da obra redentiva de Cristo, mas a consumação de todas as coisas é realizada única e exclusivamente por Deus.

Conclusão

Esses 4 pilares fornecidos pela Palavra de Deus nos ajudam a ler e a interpretar o mundo em que estamos inseridos, e eles compõe o que chamamos de “Cosmovisão Reformada”. Espero que esses 4 pilares sejam as lentes pelas quais você busque compreender o mundo em que vivemos, e que elas sejam aplicadas em todas as esferas da vida, e te ajudem a interpretar a vida e a tomar decisões que honrem e glorifiquem ao Senhor Deus!
Thiago Machado Silva

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