Criação e Evolução em Kuyper e Bavinck

7040298-auntumn-wallpapers-free-downloadIntrodução

Evolução é um tema desafiador ao ser considerado à luz das Escrituras e da fé cristã, e por este motivo, é muito mais fácil para o cristão negar e evitar qualquer tipo de diálogo inteligente sobre o assunto. De acordo com Michael Ruse, existe um senso comum que diz que evolução e religião, Darwinismo e Cristianismo são figuras totalmente diferentes e eternamente opostas entre si.[1] No entanto, existe uma longa história de debates e discussões entre estudiosos tentando reconciliar o mundo evolucionista com o mundo criacionista.

Na tradição neo-calvinista holandesa dos séculos 19 e 20, os teólogos Abraham Kuyper e Herman Bavinck também tiveram que lidar com a teoria de Darwin, e segundo Abraham Flipse, a Holanda pode ser considerada um centro significativo no debate entre criação e evolução.[2] Kuyper e Bavinck foram os precursores neste debate na Holanda, e estudiosos cristãos até os dias de hoje têm seguido os passos desses dois holandeses à fim de desenvolver um diálogo teológico e inteligente sobre o assunto.[3]

Kuyper aponta todos os problemas científicos da teoria de Darwin, o qual ele chama de naturalista, mecânica, e não-teleológica; por outro lado, ele afirma o desenvolvimento providencial da criação de acordo com a vontade e a intervenção do Criador.[4] Bavinck segue os passos de Kuyper, e também critica ferrenhamente a evolução darwinista, a chamando de desordenada e mecânica, contudo, ele também afirma o governo e a providência de Deus no desenvolvimento do mundo criado.[5] Em um contexto influenciado por Darwin, onde o mundo é visto como uma máquina que funciona por si mesma, sem ordens ou leis estabelecidas, Kuyper e Bavinck surgem não para negar cegamente a teoria da evolução, mas para apresentar a visão cristã de um mundo criado por Deus, e que se desenvolve continuamente de acordo com o governo e a providência de seu Criador.

Sendo assim, a pergunta que este artigo tenta responder é: qual é a relevância de Kuyper e Bavinck no debate sobre criação e evolução para a comunidade da fé nos dias de hoje? O que eles têm para nos ensinar? Para responder esta pergunta, eu vou explorar os principais escritos de Kuyper e Bavinck sobre o tema à fim de compreender como eles se engajaram nas discussões sobre o evolucionismo em seus dias, e o meu propósito ao fazer isto é, primeiro, apresentar as suas contribuições teológicas e segundo, demonstrar como eles podem ajudar os cristãos dos nossos dias a desenvolver um diálogo inteligente, sem abandonar as raizes da fé cristã Reformada.

Evolução de Acordo com Abraham Kuyper e Herman Bavinck

Rob Visser afirma que os teólogos calvinistas Abraham Kuyper e Herman Bavinck forneceram novas perspectivas sobre a teoria de Darwin para a comunidade calvinista holandesa no século 20.[6]         É verdade que eles negaram toda e qualquer versão naturalista e materialista de evolucionismo, mas também é verdade que as críticas de Kuyper e Bavinck não os levarem ao repúdio automático do evolucionismo em si, como muitos dos seus predecessores fizeram.[7] Eles se opuseram à teoria de Darwin, mas não ao processo de desenvolvimento e evolução da criação.

Os Argumentos de Kuyper Contra a Teoria de Darwin

Kuyper inicia seu argumento afirmando que a teoria de Darwin a o Cristianismo de fato são duas cosmovisões totalmente opostas, e com diferentes perspectivas. Ele diz, “a religião cristã e a teoria da evolução são dois sistemas que se opõem mutualmente”.[8] Para Kuyper, evolução é um novo sistema estabelecido, uma forma de dogma, uma fé que abraça e domina toda a vida, e este sistema é completamente diferente da fé cristã (E, 49-50). Mas perceba que Kuyper não está criticando a teoria da evolução em si, mas está argumentando contra a perspectiva evolucionista de Darwin, a qual ele chama de dogma. Ele afirma que este dogma à princípio, nega toda a pré-formação, ou seja, o governo e o planejamento da vida. Para Kuyper, o florescimento e uma ideia orgânica da vida, porém o dogma de Darwin não tolera nada além de uma ação mecânica, do início ao fim (E, 16).

Para Kuyper, o maior problema na teoria de Darwin é que a “seleção natural é vista como a única força que move a evolução” (E, 36). Kuyper escreve:

É evidente que a teoria da evolução não pode proceder de um grupo criado da Monera, a partir do qual, por seleção, as citoides e seus núcleos gradualmente evoluem para protistas e para o que quer que tenha sido gradualmente construído a partir deles. Assim, o ponto de partida permaneceria um mistério e a lacuna entre o mundo inorgânico e o mundo orgânico seria absoluta. A evolução, portanto, deve assumir que os organismos vivos mais primitivos passaram a existir por processos químicos a partir de combinações de carbono, ou, se preferirem, que a vida surgiu a partir do que não é vida, por meios químicos. Tentativas incontáveis têm sido feitas para trazer essa descoberta à luz, mas sem exceção, todas elas terminaram em um fiasco miserável, de modo que toda a estrutura continua sem um fundamento (E, 37).

Na opinião de Kuyper, não há nenhuma evidência que sustente que o universo se formou e evoluiu mecanicamente por si só, sem o governo de um ser soberano. Ele ironicamente afirma que “as catacumbas do mundo dos fósseis se recusaram a fornecer o que eles eram obrigados a dar, a fim de apoiar tal sistema [Darwinista]” (E, 38). Para Kuyper, a teoria da evolução de Darwin não é apenas ateísta, mas é anti-teísta, porque “a ordem moral do mundo, a lei moral que nos governa, o sentido de dever que nos une a essa lei, e o Santo que nos dá a lei, desmorona, e com estas ideias básicas perdemos as ideias correlatas de pecado, culpa e arrependimento, e as ideias correspondentes de redenção e expiação.” Portanto, a teoria da evolução de Darwin não pode produzir um desenvolvimento ético, mas apenas um “resultado acidental de adaptações descontroladas” (E, 44). E de acordo com Kuyper, a realidade de “um ser espiritual que existe independentemente do mundo material é a morte para a teoria da evolução” (E, 45). Para Kuyper, “a nossa resistência a esse sistema do cosmos sem rumo e mecanicamente construído deve ser expressada. Não devemos apenas nos defender contra ela, mas atacá-lo” (E, 49-50).

Diante de tudo isso, Kuyper não argumenta contra o próprio processo de evolução, mas contra a perspectiva de Darwin. Para ele, a crença na evolução não necessariamente precisa carregar consigo uma visão de mundo ateísta. Se alguém acredita que Deus é o grande arquiteto do mundo, esse alguém não precisa decidir como ele vai criar todas as coisas. Portanto, Kuyper afirma, “se fosse do agrado de Deus não criar várias espécies, mas uma única espécie que daria origem a todas as outras, permitindo que uma espécie anterior produzisse uma sequência maior de espécies, a criação ainda não seria menos milagrosa” (E, 47). Este ponto de vista é completamente diferente da evolução do darwinismo, pois o mundo não teria sido construído por si mesmo, mecanicamente, mas Deus o teria construído pelo uso de elementos que Ele mesmo ordenou (E, 47).

Os Argumentos de Kuyper à Favor da Evolução

Depois de se posicionar contra a teoria naturalista e ateísta de Darwin, Kuyper argumenta que é possível ter uma visão teísta e cristã da evolução. Há uma grande diferença entre “uma criação divina que evolui e a teoria naturalista de Darwin. A criação evolucionista, como ele a chama, pressupõe um Deus que primeiro planeja, e em seguida, onipotentemente executa o que havia planejado; já o Darwinismo ensina uma origem mecânica das coisas, que exclui qualquer planejamento ou propósito (E, 48). Para Kuyper, “toda a humanidade deriva de um ancestral, mas desde o seu início, ele [o ancestral] já estava destinado a tomar variadas formas e a ser enviado por diferentes caminhos… Na unidade do reino de Deus a diversidade não está perdida, mas se encontra ainda mais nitidamente definida”.[9] Isto significa que, para Kuyper, a evolução não tem a ver com a origem das coisas, mas sim com como as coisas criadas por Deus se desenvolvem de maneira progressiva, de acordo com o desígnio do próprio Criador.

Exatamente por isso não é necessário ao cristão negar cegamente a teoria da evolução, mas existe sim a necessidade de se negar a proposta Darwinista da origem do universo, e se apegar ao que as Escrituras ensinam. Para Kuyper, é possível relacionar a teoria da evolução com uma perspectiva bíblica e cristã na qual Deus é o Criador. Gênesis 1:11 diz: “Então disse Deus: ‘Cubra-se a terra de vegetação: plantas que deem sementes e árvores cujos frutos produzam sementes de acordo com as suas espécies’. E assim foi”. E novamente em Gênesis 1:24: “E disse Deus: ‘Produza a terra seres vivos de acordo com as suas espécies: rebanhos domésticos, animais selvagens e os demais seres vivos da terra, cada um de acordo com a sua espécie’. E assim foi”. Kuyper usa essas duas passagens bíblicas para argumentar que evolução faz parte do processo criativo de Deus; é o método dinâmico e contínuo que Deus usa em sua obra criacional de Gênesis 1.

No entanto, de acordo com Kuyper, “o relato bíblico da Criação elimina, ao invés de apoiar, a entrada dramática de novos seres” (E, 49). Embora existam alguns pontos de contato entre a teoria de Darwin e uma crença teísta na evolução, os cristãos devem estar cientes de que essas duas teorias permanecem irreconciliáveis. O homem é e continua a ser criado segundo a imagem de Deus, e não é a natureza animal que determina a natureza humana, mas pelo contrário, todo o cosmos inferior é paradigmaticamente determinado pela posição central do homem (E, 49). A criação se desenvolve, não naturalista e mecanicamente, como Darwin propôs, mas de acordo com a vontade e providência de Deus. Essa é a principal diferença entre a perspectiva cristã de Kuyper e a perspectiva naturalista de Darwin.

Em resumo, contrário à evolução darwinista em que o forte vence o mais fraco, Kuyper se apega a Cristo “que busca o perdido e tem misericórdia dos fracos” (E, 50). Contrário aos mecanismos sem lei da evolução de Darwin, Kuyper coloca sua fé no Deus que criou e continua a sustentar todas as coisas de acordo com sua vontade.

Os Argumentos de Bavinck Contra a Teoria de Darwin

Herman Bavinck segue a mesma linha de pensamento de Abraham Kuyper. Ele começa seus escritos criticando a teoria de Darwin. Porém Bavinck, ao se referir ao processo evolucionário, prefere usar o termo ‘desenvolvimento’ ao invés de evolução. Ele escreve:

A teoria do desenvolvimento de Darwin tem fornecido os meios necessários para tornar este processo do ser inteligível no mundo material. Assim, com a mudança do século, tem sido gradualmente uma nova visão de mundo surgido que se compromete a interpretar não apenas os seres inanimados, mas também os seres animados, não apenas o inconsciente, mas também o consciente, e tudo isso tem acontecido, sem exceção, independentemente de Deus, e unicamente a partir de um autodesenvolvimento imanente.[10]

O sistema proposto por Darwin, de acordo com Bavinck, é compreendido, em primeiro lugar, no sentido de descida, onde “os humanos surgem dos animais, os animais surgem a partir das plantas, as plantas a partir de células, e as células da matéria inorgânica. Tudo o que é superior deriva de que é inferior”.[11] Em segundo lugar, o que causa a evolução vem de uma natureza mecânica e química. E em terceiro lugar, “não há espaço para essência e natureza das coisas, nem existe um plano e um objetivo no processo de desenvolvimento” (ERSS, 109). Tudo é acidental.

Para Bavinck, a palavra evolução não tem nada a ver com acidente, mas “adquire o significado de desdobramento, de dispersão, de abertura, e é usada para uma peça de vestuário que é desdobrada, de um rolo que é aberto. Além disso, ela adquire o significado de tratar um assunto que tem de ser desdobrado de maneira ordenada e gradual” (ERSS, 105). Algo deve existir a fim de evoluir ou se desenvolver. Somente no século 18 a palavra evolução passou a ser usada para algo não criado, no sentido de vir à existência (ERSS, 105). Porém, o termo evolução, para Bavinck, traz a ideia de algo que já existe, e que é “guiado desde o início para uma certa direção” (ERSS, 106).

Bavinck, assim como Kuyper, também considera a teoria de Darwin como uma cosmovisão totalmente anti-Deus. Bavinck observa que, para Darwin, “o sistema de desenvolvimento não oferece espaço para plano ou propósito” (CD, 866). É a não-religião contra a religião, o ateu contra o teísta, o mecânico contra o orgânico, ou como tem sido dito, a cosmovisão evolucionista contra a cosmovisão criacionista (CD, 852). Ou seja, são dois sistemas opostos e diferentes, e por esta razão, Bavinck diz que é o nosso papel comparar essas duas cosmovisões levando em consideração três pontos principais: a origem, a essência, e o fim de todas as coisas, de modo que tal comparação possa nos estabelecer mais firmemente na fé cristã e nos cingir com força para o conflito que, em medida maior ou menor, espera por todos nós. (CD, 852).

Na verdade, Bavinck afirma que a teoria de Darwin substitui a providência de Deus porque “evolução é a lei eterna que governa e direciona tudo o que existe” (CD, 854). Bavinck explica:

Através de muitos tipos de evoluções a terra forma-se a si mesma em uma morada para os seres vivos. Primeiro, há o inanimado, a formação de mares e terras, de montanhas e riachos, de minerais e camadas de terra. Em seguida, a matéria se organiza ao longo de linhas mais finas e as operações se tornam cada vez mais complexas, até que finalmente em circunstâncias favoráveis a partir de matéria inorgânica se origina a célula, que é a portadora da vida. E… no decorrer dos séculos, desenvolvem-se os reinos de plantas e animais, em formações cada vez mais elevadas, com variedades mais ricas, maiores e mais numerosas. Não há um abismo profundo entre o animado e o inanimado, mas uma transição gradual. Há apenas uma construção mais complexa, uma organização mais fina, um desenvolvimento mais elevado. Da mesma maneira o homem entra em cena (CD, 854-855).

No entanto, de acordo com Bavinck, ninguém jamais demonstrou onde, quando e como os animais se tornaram homens. Na história, animais têm sido sempre animais e os seres humanos sempre foram seres humanos. Bavinck diz: “a teoria de Darwin pode ser um elo indispensável na doutrina de desenvolvimento; que não encontra apoio nos fatos. O homem sempre foi e continua sendo uma espécie distinta das demais criaturas. (CD, 859).

Assim, a visão mecanicista e naturalista de Darwin não serve para explicar a origem, a essência e o fim das coisas (ERSS, 111). A teoria de Darwin “é mais uma questão de querer e acreditar do que saber. Não é provado pelos fatos, mas requerida pelo sistema” (ERSS, 116). Para Bavinck, “não só na biologia e antropologia, mas também na natureza inorgânica não vamos encontrar o caminho sem encontrar o poder onipotente e onipresente pelo qual Deus sustenta e governa todas as coisas” (ERSS, 116). Juntamente com Kuyper, Bavinck se levanta na Holanda, contra a visão darwinista e naturalista do mundo, afirmando que há um Deus que é o Criador do céu e da terra e que chama todas as coisas à existência.

Os Argumentos de Bavinck à Favor da Evolução

No entanto, Bavinck também acredita, como Kuyper, que é possível ter uma visão teísta da evolução, diferente da visão de Darwin. Ele diz: “O desenvolvimento não é contra a criação, mas só é possível tendo a criação como seu fundamento e confissão” (CD, 866). De acordo com Bavinck, “a evolução é orgânica e teleológica, e por isso ela tem um caráter progressivo” (ERSS 106). Ou seja, a teoria do desenvolvimento deve ser explicada dentro da moldura da criação.

O desenvolvimento da criação tem a ver com pensamentos, propósitos, e lei, portanto, ele precisa seguir a doutrina da criação. A evolução não pode produzir nada de si mesma, pois é apenas uma forma de movimento que encontra o seu lugar na doutrina da criação. Como diz Bavinck, “o desenvolvimento fica entre a origem e o fim; sob a providência de Deus que leva do início ao fim, e revela todas as riquezas do ser e da vida para a qual Deus os criou” (CD, 866). Portanto, tudo que Deus fez foi criado com uma natureza, e vive de acordo com leis específicas. Para Bavinck, Deus é “a fonte de todo ser, a origem de toda a vida e luz, a fonte transbordante de todo o bem, que exibe suas virtudes no mundo e o preenche com sua glória” (CD, 867).

Bavinck diz que o cristianismo não substitui ou contesta tal ideia de desenvolvimento, mas a enriquece (ERSS, 106), porque tudo acontece de acordo com o pensamento, o plano e propósito de Deus. A Escritura apresenta a criação e a humanidade como uma história de “desenvolvimento que procede de um certo ponto e se move em direção a um objetivo específico, progredindo em direção ao ideal absoluto, para o seu verdadeiro ser, rumo à vida eterna” (ERSS, 107). O cristianismo não oferece uma objeção à noção de desenvolvimento ou evolução, mas como diz Bavinck, “é a criação somente que faz com que tal evolução seja possível”.[12]

A Escritura, por um lado, reconhece a verdade da evolução quando mostra plantas e animais emergindo da terra por ordem de Deus (Gn 1:11, 20, 24). Por outro lado, no entanto, diz que a terra só poderia trazer esses seres orgânicos por uma palavra da onipotência divina, e que estas entidades orgânicas existiram lado a lado desde o início como espécies distintas, cada uma com sua própria natureza (Gen. 1:11, 21).

Portanto, para Bavinck, o conceito de evolução não se limita ao movimento mecânico e conexões químicas. “Desde que a evolução não seja entendida num sentido mecânico, não há, portanto, nenhuma antítese entre criação e desenvolvimento” (ERSS, 117). O desenvolvimento implica um plano e uma lei, direções e objetivos, e “por isso só pode concebida plenamente com base na criação” (ERSS, 118). Como Bavinck afirma, “a teoria da evolução nos obriga a voltarmos os olhos para a doutrina da criação como a Escritura nos apresenta”.[13] A evolução não explica a origem do mundo, como Darwin afirma, mas leva em conta o mundo criado e lida com o seu desenvolvimento de acordo com o poder e providência de Deus.

Considerações Finais

De acordo com Kuyper e Bavinck, a teoria da evolução de Darwin é naturalista, e portanto, drasticamente oposta a Deus e ao cristianismo. Porém, embora eles neguem e lutem contra a teoria darwinista, eles não negam a evolução da criação. Na criação de Deus há lugar para o desenvolvimento de acordo com a vontade e providência do Criador. A diferença entre cosmovisão cristã e a darwinista é esta: na cosmovisão cristã existe um Criador que ordena e governa toda a criação; no entanto, animais sempre foram animais, plantas sempre foram plantas e seres humanos sempre foram seres humanos, cada um desenvolvendo-se de acordo com o plano e propósito de Deus ao longo da história. Já na teoria de Darwin, não existe espaço para um Criador com leis e propósitos, pois tudo acontece mecanicamente.

Kuyper e Bavinck abrem a porta para o envolvimento dos cristãos em debates científicos, afirmando que não há necessidade de negar a própria teoria da evolução, porque se Deus é o Criador, ele pode sustentar e governar sua criação por meio de sua evolução e desenvolvimento. A criação de Deus é uma criação contínua e dinâmica porque Deus é dinâmico e criativo. A grande diferença é que a teoria da evolução baseada em uma perspectiva cristã, não explica a origem das coisas, mas lida com as coisas criadas e funciona dentro da doutrina da criação. A cosmovisão cristã afirma o desenvolvimento providencial da criação de acordo com as leis estabelecidas pelo Criador, ao mesmo tempo que se opõe e rejeita o evolucionismo naturalista e desordenado de Darwin. O mesmo Deus que chamou todas as coisas à existência é o Deus que mantêm e sustenta toda a criação em contínuo desenvolvimento, de acordo com sua providência.

Thiago Machado Silva

Notas:

[1] Michael Ruse, “Evolution,” Encyclopedia of Science and Religion, ed. J. Wentzel Vrede van Huyssteen (New York, NY: Macmillan Reference USA, 2003), 279.

[2] Abraham C. Flipse, “The Origins of Creationism in the Netherlands: the Evolution Debate among Twentieth-Century Dutch Neo-Calvinists,” Church History 81 (2012), 104.

[3] Cf.: Harry R Boer, “Evolution and Herman Bavinck,” The Reformed Journal 37 (1987): 3-4; Flipse, “Origins,” 104-147; George Harinck, “Twin Sisters with a Changing Character: How Neo- Calvinists Dealt with the Modern Discrepancy between Bible and Natural Sciences,” in Nature and Scripture in the Abrahamic Religions: 1700-present, ed. Jitse M. van der Meer and Scott Mandelbrote (Leiden: Brill, 2008): 317-370; Peter S. Heslam, “Faith and Reason: Kuyper, Warfield and the Shaping of the Evangelical Mind,” Anvil 15.4 (1998), 299-313; Clarence Menninga, “Critical Reflections on Abraham Kuyper’s Evolutie Address,” Calvin Theological Journal 33.2 (1998): 435- 443; J. C. Rullmann, W. F. A. Winckel, and Steve Van Der Weele, Abraham Kuyper on Evolution (Grand Rapids: Youth and Calvinism Group, 1950); Rob P. W. Visser, “Dutch Calvinists and Darwinism, 1900-1960,” in van der Meer, Nature and Scripture, 293-315.

[4] Flipse, “Origins,” 111.

[5] Flipse, “Origins,” 112.

[6] Rob P W. Visser, “Dutch Calvinists and Darwinism, 1900-1960,” Nature and Scripture in the Abrahamic religions (Leiden: Brill, 2008): 295.

[7] Visser, Dutch Calvinists and Darwinism, 295.

[8] Abraham Kuyper, “Evolution,” Calvin Theological Journal 31, no. 1 (April, 1996): 15. As próximas citações desta obra aparecerão entre parênteses no corpo do texto (por exemplo: E, 15).

[9] Abraham Kuyper, “Uniformity: The Curse of Modern Life,” A Centennial Reader, ed. James D. Bratt (Grand Rapids: Eerdmans, 1998): 35.

[10] Herman Bavinck, “Creation or Development?” Methodist Review 83 (1901): 850. As próximas citações desta obra aparecerão entre parênteses no corpo do texto (por exemplo: CD, 850).

[11] Herman Bavinck, Essays on Religion, Science, and Society, trans. Harry Boonstra and Gerrit Sheeres, (Grand Rapids, Mi: Baker Academic, 2008): 109. As próximas citações desta obra aparecerão entre parênteses no corpo do texto (por exemplo: ERSS, 109).

[12] Herman Bavinck, Reformed Dogmatics, ed. John Bolt, vol. 2 (Grand Rapids: Baker Academic, 2004): 513.

[13] Bavinck, Reformed Dogmatics, vol. 2, 520.

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