Bavinck: O homem e seu pensamento

bavinck-man-and-mind-blog2xHerman Bavinck, o Homem

Herman Bavinck tem sido conhecido [pelos falantes de língua inglesa e portuguesa] como um pensador, teólogo, e como o autor de seus quatro volumes da Dogmática Reformada. Agora, ninguém pode ler a Dogmática Reformada e não aprender algumas coisas importantes pessoais sobre Bavinck o teólogo.

Bavinck escreveu teologia com a igreja em mente; ele valorizou a piedade evangélica; ele não desprezou a aprendizagem moderna; ele tinha um interesse genuíno nas tradições religiosas não-cristãs do mundo como dados importantes para a teologia cristã; embora ele tenha sido firmemente comprometido com a tradição confessional reformada, a sua gama teológica era verdadeiramente católica. A grandeza de sua mente é evidente.

Mas, e sobre o homem, o homem cristão? Qual é a relação entre a compreensão que Bavinck tinha da vida cristã como é expressa em seus escritos e sua própria vida de discipulado cristão? Será que ele praticava o que pregava e ensinava? Será que a sua própria vida passou pelo escrutínio de sua própria teologia?

A resposta, como tentarei mostrar neste breve olhar sobre a vida de Bavinck, é um enfático “sim!”

Uma breve visão geral de sua vida

Bavinck cresceu em uma casa de família piedosa; seu pai era um dos principais ministros da Secessão da “Christian Reformed Church” [Igreja Cristã Reformada] que rompeu relações com a Igreja Reformada Holandesa Nacional em 1834 devido a preocupações sobre doutrina e vida. A igreja era um grupo marginalizado e até mesmo desprezado na sociedade holandesa, e, nos primeiros anos de sua existência, os membros sofriam por sua fé. Esperava-se que esse grupo, apaixonado pela correta doutrina e pela santidade da vida, levasse à sério a vida cristã; a sua posição na sociedade holandesa não incentivava uma vida despreocupada, frivolidade ou lazer.

Biógrafos mais recentes… [têm observado] que a casa de Bavinck estava longe de qualquer tipo de legalismo e incentivava a liberdade cristã. Embora ele tenha vindo para a vocação ministerial um pouco mais tarde na vida, o pai de Herman Bavinck, Jan Bavinck, foi um homem culto e instruído, um dos primeiros em sua igreja a ser nomeado para lecionar na nova escola teológica da denominação em Kampen, em 1854, o ano do nascimento de Herman. O Bavinck mais velho era um homem caracterizado por uma devoção saudável e abertura para o melhor da aprendizagem e da cultura humana.

Encontramos a confirmação desta abertura em sua resposta ao interesse declarado de Herman para estudar teologia na modernista Universidade de Leiden em vez de estudar na escola teológica de Igreja Cristã Reformada em Kampen. O desejo expresso de Herman era de “obter uma formação mais acadêmica do que a Escola de Teologia era capaz de fornecer”, e “familiarizar-se em primeira mão com a teologia moderna”. Ele foi, no entanto, consciente da luta espiritual que o aguardava, escrevendo em seu diário: “Devo permanecer de pé [na fé]? Que Deus me ajude”. É notável, aqui, que seu pai e sua mãe apoiaram sua decisão.

Deus estava com ele e, para grande alívio dos membros de sua Igreja Cristã Reformada, ele permaneceu firme em sua fé. Depois que terminou seu período de estudos em Leiden em 1880, as reflexões de Bavinck sobre aqueles anos capta a tensão que sentiu: “Leiden me beneficiou de muitas maneiras: eu espero sempre reconhecer isso com gratidão. Mas também Leiden me empobreceu muito, me roubou, não apenas o grande cascalho (pelo qual estou feliz), mas também muito do que eu recentemente, especialmente quando eu prego, reconhecia como vital para a minha própria vida espiritual.

A profunda piedade de Bavinck, alimentada nas igrejas da Secessão, se reflete em sua incansável dedicação e trabalho pela Igreja Cristã Reformada. Ao completar seu doutorado em 1880, ele recusou uma nomeação na nova Universidade Livre de Amsterdam, de Abraham Kuyper, para servir a congregação reformada cristã em Franker, Friesland, onde seu breve pastorado de dois anos deixou uma impressão sobre alguns de seus jovens que foi lembrado mesmo 40 anos mais tarde e até depois de sua morte em 1921. Não somente o seu ministério trouxe cura para uma congregação conturbada e dividida, foi sua compaixão por aqueles que eram fisicamente e mentalmente deficientes (descritos como pessoas muitas vezes desprezadas pelo mundo como se fossem nada), que deixou uma impressão duradoura.

Em seguida, empurrado pela ânsia de usar seu treinamento e dons acadêmicos, Bavinck recusou um segundo pedido da Universidade Livre de Kuyper para aceitar o chamado de sua igreja para se tornar um professor da menor, menos equipada, e menos prestigiada Escola Teológica em Kampen, onde trabalhou com distinção durante vinte anos.

O núcleo de sua teologia: A imitação de Cristo

Espero que o retrato esboçado que eu pintei até agora sugira ao leitor que a imitação de Cristo – seguir Jesus em fiel e humilde serviço – é o coração do entendimento de Bavinck a respeito da vida cristã. Isso é realmente o que os melhores e mais recentes estudos em Bavinck têm afirmado.

Isso não retira a verdade de que sua visão do governo real de Cristo assemelhava-se a de Abraham Kuyper; juntos, eles levaram o renascimento da fé reformada no final do século XIX, o qual chamamos de “Neocalvinismo Holandês”. Mas quer dizer que Bavinck precisava se distanciar de elementos em sua própria comunidade que incentivavam o distanciamento do mundo e a antipatia para com a cultura. Em seu discurso magisterial, “A catolicidade do cristianismo e da Igreja”, ele repreendeu aqueles que evitavam as lutas culturais e até mesmo fugiram para a América do Norte:

Satisfeito com a capacidade de adorar a Deus em suas próprias casas de culto, ou de envolver-se com evangelismo, muitos deixam a nação, o Estado e a sociedade, a arte e a ciência entregues à própria sorte. Muitos se retiram completamente da vida, se separaram literalmente de tudo, e, em alguns casos, o que é ainda pior, embarcam para a América, abandonando a Pátria perdida para a incredulidade. É preciso notar que, embora essa orientação tenha muito do que é cristão, está faltando a plena verdade do cristianismo. Nega-se a verdade de que Deus ama o mundo. Dedica-se ao conflito e até mesmo à rejeição do mundo, mas não à “vitória que vence o mundo” pela fé.

Trazer cativo todo pensamento a Cristo – enxergando todo o cosmos através da lente de uma confissão trinitária – era parte integrante dessa vitória. É apropriado relacionar a famosa frase de Kuyper, “Não há um único centímetro quadrado, em todos os domínios de nossa existência, sobre os quais Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: É meu!”, com a citação de Bavinck:

A mente pensante coloca a doutrina da Trindade no próprio centro da vida integral da natureza e da humanidade […] A mente do cristão não fica satisfeita até que toda forma de existência tenha sido atribuída ao Deus Triúno e até que a confissão da Trindade tenha recebido o lugar de proeminência em toda a nossa vida e pensamento.

Além da Dogmática Reformada, muitos artigos de Bavinck sobre ciência, psicologia, pedagogia e educação, todos revelam como um intelecto dotado buscava exercer seu próprio chamado para seguir Jesus.

E ainda… Bavinck nunca deixou o núcleo de sua piedade essencial para trás. Ele temia que o “sucesso” do Neocalvinismo Kuyperiano pudesse levar ao mundanismo triunfalista e por isso ele advertia seus colegas neocalvinistas a não serem muito críticos dos “pietistas” em seu meio (é claro que ele tinha seu próprio povo da Igreja Cristã Reformada em mente):

Enquanto esses cristãos do século XIX [“pietistas”] esqueceram o mundo por si mesmos, nós corremos o risco de nos perder no mundo. Hoje em dia estamos lá fora para converter o mundo todo, para conquistar todas as áreas da vida para Cristo. Mas, muitas vezes, esquecemos de nos perguntar se nós mesmos somos verdadeiramente convertidos e se nós pertencemos a Cristo na vida e na morte. Pois a vida se resume nisso. Nós não podemos banir essa questão da nossa vida pessoal ou eclesiástica sob o rótulo de pietismo ou metodismo. De que vale ao homem ganhar o mundo inteiro, mesmo pelos princípios cristãos, se ele perder a sua alma?

Com todo o grande aprendizado e realização teológica significativa de Bavinck, “Isto é o que resume a vida – Será que somos verdadeiramente convertidos e pertencemos a Cristo na vida e na morte?”

Tem sido meu distinto privilégio conhecer e disponibilizar aos outros a grande mente de Herman Bavinck. Para mim, no entanto, é, acima de tudo Bavinck o homem – o homem cristão – que me desafia e me chama a ir mais fundo e mais alto como um seguidor de Jesus Cristo. Ele pregou e ensinou o que praticou.

– Dr. John Bolt (PhD, University of St. Michael’s College). Professor de Teologia Sistemática no Calvin Theological Seminary em Grand Rapids, Michigan.

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