Bavinck e a vida cristã [Resenha]

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John Bolt, Bavinck on the Christian Life: Following Jesus in Faithful Service. Wheaton: Crossway, 2015, 266 páginas.

[Bavinck sobre a vida cristão: seguindo a Jesus em serviço fiel]

Com a tradução da Dogmática Reformada de Herman Bavinck para o inglês e depois para o português na última década, e a expectativa de vários outros projetos de traduções para o futuro, a vida e o pensamento de Bavinck ganharam vasta atenção no mundo ocidental, principalmente entre os teólogos reformados. A voz de Herman Bavinck ainda vive e é ouvida. E com certeza, ele é e será uma das mais importantes referencias para os teólogos reformados do século 21.

Apenas nos últimos cinco anos, estudiosos têm escrito monografias, teses e dissertações explorando a dogmática de Bavinck, seus conceitos e proposições teológicas. A doutrina da Trindade, temas como “graça restaura a natureza”, revelação, entre outras doutrinas de sua dogmática, têm sido muito exploradas. No entanto, pouco têm sido escrito sobre Bavinck, o homem cristão e sua ética. Nesse sentido, o livro de John Bolt, publicado em 2015 pela Crossway, é muito bem vindo. A figura que Bolt pinta de Bavinck como um gigante intelectual do neo-calvinismo holandês e um piedoso que ama a igreja, nos oferece os elementos necessários para uma prática ministerial saudável, com uma visão teológica robusta e apropriada para as necessidades da cultura em que vivemos.

John Bolt estrutura sua obra usando a metáfora da construção: os fundamentos (doutrinas bases da vida cristã), o formato dos muitos quartos (a imitação de Cristo como a forma do discipulado cristão), e o conteúdo dos quartos (o estilo de vida e a prática do discipulado cristão). Fundamentalmente, a humanidade como imagem do Deus triúno é o ápice da criação, em um cosmos que reflete o seu ser. De acordo com Bolt, o trabalho cristão, em resposta à essa natureza [a imagem de Deus], é uma instituição divina, uma vocação para ser vivida na cultura e sociedade. O fundamento dessa construção, de acordo com Bolt e Bavinck, é a ordem criacional e a vocação humana como mandato cultural, a bênção da graça comum que sustenta a sociedade e a lei de Deus administrada pela relação pactual e assegurada pela doutrina da união com Cristo. Da mesma forma que o evangelho requer que nos atentemos para um destino escatológico, ele também nos chama para que sigamos nossas vocações terrenas na sociedade em que vivemos. O evangelho guia “todas as nossas relações humanas… e as restaura ao formato original moldado… pela cruz de Cristo”.

Em todas as circunstâncias, de acordo com a parte 2 do livro, o chamado do evangelho é para a imitação de Cristo em nosso contexto específico; somos chamados pelo evangelho a imitarmos a Cristo onde quer que estejamos inseridos. Isso não significa que é um chamado reducionista simplesmente por adotar uma cosmovisão particular. Pelo contrário, a mente cristã é desenvolvida por uma fé viva sob a direção da revelação divina. Portanto, de acordo com Bavinck, os seres humanos não são fundamentalmente coisas pensantes, mas sim uma totalidade e integralidade de coração e mente, que reflete a unidade orgânica do Deus triúno.

Na seção final, a prática do discipulado, Bolt examina a ética da vida cotidiana de acordo com Bavinck. A teologia de Bavinck é pública, e fala à sociedade, à cultura, à ciência, à política, à arte, à família e ao trabalho. Em obediência ao mandato cultural, a igreja como organismo chama a sociedade para os princípios divinos. O movimento de toda a sociedade é guiado pela vontade de Deus, e orientado para seu cumprimento no reino de Deus. Esta perspectiva escatológica requer uma ética do reino aqui e agora, para a igreja como organismo. A ética da justiça, por exemplo, exige que uma pessoa aja de acordo com sua natureza e, assim, viva de acordo com as leis de Deus. O cristão justificado nunca olha para a sociedade injusta e a condena superficialmente, mas busca a sua paz e prosperidade com a esperança do reino. Nesse sentido, podemos dizer que a teologia e a ética de Bavinck são missionais, pois devem ser pensadas e vividas não somente dentro da esfera religiosa, mas também fora dela; Bavinck tem algo a dizer para as outras esferas públicas da sociedade.

Bolt, ao longo do livro, reflete sobre a relevância da teologia moral de Bavinck para o nosso próprio século de uma maneira que prova o significado perpétuo de Bavinck. Os méritos do trabalho de Bolt são claros e muitos. O livro possui uma linguagem clara e ao mesmo tempo reflexiva. A obra “Bavinck on the Christian Life” [“Bavinck sobre a vida cristã”] não é uma obra exaustiva que contém todo o sistema teológico e ético de Bavinck; ele é uma porta de entrada para sua vida, teologia e ética. Os pontos de contato que o autor faz com o século 21 revelam o fato de que Herman Bavinck ainda tem algo a nos dizer.

Thiago Machado Silva

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