Bavinck e sua Teologia Dogmática

bavinck-love123Bavinck: Professor de Dogmática

Após completar seus estudos em Leiden, Herman Bavinck entrou para o ministério na Igreja Cristã Reformada de Franeker. Ainda em Franeker, Bavinck recusou convite para ensinar teologia na Universidade Livre de Amsterdam duas vezes. No entanto, em 1882, quando o Sínodo Geral da Igreja Cristã Reformada o convidou para ocupar a cadeira vaga da dogmática no seminário de Kampen, Bavinck aceitou e começou seu trabalho em 10 de janeiro de 1883, com um discurso inaugural sobre “A Ciência da Teologia sagrada”. Este discurso foi bem recebido em todas as igrejas, e chamou a atenção de Abraham Kuyper, que escreveu uma resenha sobre ele em De Heraut (21 de janeiro de 1883), observando que “eu nunca li um tratado com tanta atenção, do início ao fim , como este discurso inaugural”. Com esse discurso de posse, Bavinck iniciou um período de vinte anos de trabalho produtivo em Kampen. Muito amado por seus alunos pela sua modéstia, eloquência incomum e extraordinária amplitude de conhecimento, Bavinck produziu durante seus anos em Kampen sua “Dogmática Reformada” em uma primeira edição de quatro volumes (1883-1901).

Em 1892, Bavinck fez a primeira de duas viagens para a América. Ele fez um discurso para a Aliança das Igrejas Reformadas, no Canadá. Aproveitou a ocasião para visitar seu amigo próximo, Geerhardus Vos, que estava então ensinando no Calvin Theological Seminary. Ele também visitou Princeton Theological Seminary, onde conheceu e fez amizade com o professor B. B. Warfield.

Durante a luta, que aconteceu em 1880, para unir as igrejas da Secessão (1834), com as igrejas do Doleantie (1886)[1], surgiu uma disputa sobre a questão do controle da igreja com relação ao ensino da teologia e à preparação de alunos para o ministério. A maioria dos que estavam do lado da Secessão de 1834 pretendiam manter o princípio do controle da igreja, enquanto que aqueles que estavam do lado da Doleantie sob Kuyper favoreceram o princípio do “estudo livre”, e o local da disciplina da teologia em um ambiente universitário. Bavinck, que participou de forma significativa no processo que levou à união dessas igrejas, em 1892, era um tipo de anomalia em sua própria tradição, pois ele era simpático à ideia de que a teologia deveria ser exercida num contexto universitário, de modo a incentivar a abordagem acadêmica mais rigorosa e “científica”. Isso ajuda a explicar a decisão de Bavinck de aceitar a nomeação para a dogmática na Universidade Livre de Amsterdam em 1902, depois de quatro convites.

Em 1908, Bavinck visitou a América pela segunda vez, principalmente para discursar o que ficou conhecido como “Palestras de Pedra” [Stone Lectures] no Princeton Theological Seminary. Nesta visita, Bavinck também teve o privilégio de visitar o presidente Theodore Roosevelt. Há evidências de uma mudança de interesses acadêmicos de Bavinck durante este período posterior de seu ensino. Como ele confidenciou a um amigo próximo, “A medida que envelheço minha mente se torna mais e mais longe da dogmática e mais próxima dos estudos filosóficos e destes para sua aplicação às necessidades práticas da vida”[2]. Em muitos de seus escritos posteriores , Bavinck tentou oferecer uma ampla base filosófica e pedagógica para a busca da excelência em escolas cristãs em todos os níveis, incluindo a universidade.

Sob a providência de Deus, a vida de Bavinck terminou inesperadamente, num momento em que ele ainda estava envolvido em uma variedade de atividades acadêmicas, políticas, culturais e religiosas. Depois de fazer um discurso eloquente na reunião sinodal das igrejas reformadas em Leeuwarden, Bavinck sofreu um ataque cardíaco, do qual ele começou a se recuperar, mas não totalmente. Depois de um longo período de doença, Bavinck “adormeceu” no Senhor em 29 de julho de 1921. Entre as memórias comoventes registradas de visitas com Bavinck na época, está sua resposta à questão do saber se ele tinha medo de morrer: “Minha dogmática de nada serve, nem o meu conhecimento, mas eu tenho a minha fé, e nela eu tenho tudo”[3].

Características da teologia de Bavinck

Embora seja difícil de capturar a essência de uma figura como Bavinck, o perfil que emerge de seus escritos e biografias é o de um excepcionalmente talentoso, mas modesto e despretensioso, erudito. Quando ele se envolvia com as opiniões dos outros, mesmo aquelas opiniões com as quais ele discordava fortemente, Bavinck era extraordinariamente cortês e respeitoso. Sempre que possível, ele reconhecia a verdade parcial expressa por outros teólogos, mesmo que ele não pudesse finalmente concordar com seu ponto de vista. Consequentemente, embora ele tenha sido inflexível em suas convicções como um teólogo reformado, Bavinck muitas vezes foi respeitado por contemporâneos que não eram simpáticos com sua posição confessional.

Existem várias qualidades notáveis que caracterizam o trabalho de Bavinck como teólogo. Uma dessas qualidades reflete o que observamos sobre sua pessoa, ou seja, o seu tratamento simpático com relação aos pontos de vista dos outros. Em seus escritos, Bavinck exibe um meticuloso cuidado em representar posições alternativas. Antes de criticar uma posição com a qual ele discorda, ele mostra um grande esforço para representá-la da melhor maneira possível. Ele também resiste à tentação de chegar prematuramente a uma conclusão. Em sua Dogmática, por exemplo, Bavinck evidencia uma familiaridade extraordinária com a discussão de temas teológicos em toda a história da igreja. Ao abordar um tema teológico, ele leva em conta o espectro de opiniões ao longo da história e entre as mais diversas posições confessionais (seja protestante, católica romana, ou Ortodoxa Oriental). Só depois de uma abordagem completa da discussão bíblica, histórica e confessional de qualquer assunto em particular é que ele chega a uma conclusão de sua autoria. No entanto, essa qualidade meticulosa e católica de seus estudos, sua diligente investigação e consideração das possíveis respostas à uma pergunta, estão entre as razões pelas quais a Dogmática Reformada de Bavinck continua sendo um modelo para os teólogos reformados contemporâneos.

Três grandes temas na teologia de Bavinck

Três grandes temas se repetem ao longo dos escritos de Bavinck como um teólogo reformado. O primeiro deles é o tema de suas palestras em Princeton: a filosofia da Revelação. Em face da extinção filosófica e das críticas sobre a doutrina histórica da revelação divina, Bavinck trabalhou de forma consistente ao longo de sua vida, demonstrando firme convicção da realidade do Deus trino que se revela através de todas as suas obras da criação e redenção, e que prevê a “escrita” dessa revelação no Antigo e Novo Testamentos. A teologia reformada deve construir, assim como a igreja é construída, sobre o firme fundamento do próprio testemunho que Deus faz de si mesmo e da manifestação de sua graça no Senhor Jesus Cristo.

O segundo tema é a ênfase de Bavinck na “catolicidade” da Igreja e da fé cristã. Toda a verdade, em qualquer esfera ou disciplina acadêmica, deriva de um conhecimento das obras de Deus na criação e na redenção. A teologia reformada nunca pode, portanto, ser vítima de um espírito paroquial ou estreito que evita a busca do estudo [conhecimento] ou abandona a academia à incredulidade.

Um terceiro e último tema que permeia os escritos teológicos de Bavinck é aquele que compartilhava plenamente com seu contemporâneo, Abraham Kuyper, ou seja, que “a graça restaura a natureza” – ou melhor, que a redenção envolve a renovação e a consumação de toda a criação. Os propósitos do Deus trino na redenção não culmina apenas na re-criação de uma nova humanidade, através da obra de Jesus Cristo, mas também na realização dos propósitos de Deus para toda a criação em si. Como Kuyper, Bavinck não ficaria satisfeito com o conhecimento que não procura trazer cativo todo pensamento à obediência de Cristo. Nem poderia contentar-se com a ideia de que qualquer dimensão da verdade é separável da verdade que está em Cristo, a quem todas as coisas no céu e na terra estão sujeitas.

Estes temas e as linhas gerais de sua Dogmática, exercem uma profunda influência sobre conhecidos teólogos norte-americanos como Cornelius Van Til e Louis Berkhof.

Tem sido sugerido, não implausivelmente, que a teologia de Bavinck reflete uma espécie de “dualidade” que corresponde à sua biografia pessoal. Bavinck foi tanto o filho fiel da Secessão de 1834 como o estudioso que deliberadamente escolheu estudar na universidade mais liberal da Holanda. Por um lado, Bavinck se esforçou para aderir fielmente à autoridade das Escrituras e às normas ou confissões das igrejas reformadas. Por outro lado, ele lia muito e engajou-se com simpatia com o melhor da erudição teológica e da cultura moderna. Bavinck pode ser caracterizado como um “homem entre dois mundos”[4]. Essa dualidade na vida de Bavinck não deve ser exagerada, no entanto, ela expressa na arena do conhecimento teológico uma característica inevitável da vida de todo cristão que está “no, mas não é do mundo”.

Só podemos esperar que, com a publicação de Dogmática de Bavinck, mais leitores tenham acesso às contribuições deste teólogo notável. Embora muitos não concordem sempre com as conclusões do Bavinck, eles podem encontrar nele um modelo excelente de conhecimento teológico reformado – profundamente enraizado na riqueza da revelação bíblica, simpaticamente informado pelas grandes confissões das igrejas reformadas, instruído pela história da reflexão da igreja sobre a Palavra de Deus, e cuidadosamente envolvido com a ampla gama de desafios contemporâneos para a fé cristã. Se os leitores podem aprender alguma coisa com Bavinck, devem aprender como o trabalho da teologia deve ser conduzido. Em uma bela passagem de sua Dogmática, Bavinck oferece um vislumbre da compreensão de sua vocação como um teólogo cristão:

A Dogmática nos mostra como Deus, que é todo-suficiente em si mesmo, no entanto, glorifica a si mesmo em sua criação, a qual, mesmo dilacerada pelo pecado, é reunida de novo em Cristo (Ef 1.10). [A Dogmática] nos descreve Deus, sempre Deus, do início ao fim – Deus em seu ser, Deus em sua criação, Deus contra o pecado, Deus em Cristo, Deus quebrando toda a resistência através do Espírito Santo e guiando toda a criação de volta ao objetivo que decretou para ele mesmo: a glória do seu nome. A Dogmática, portanto, não é uma ciência maçante e árida. É uma teodiceia, uma doxologia à todas as virtudes e perfeições de Deus, um hino de adoração e ação de graças, um “glória a Deus nas alturas” (Lc 2.14)[5].

Cornelis P. Venema. Traduzido por Thiago Machado Silva

[1] As igrejas do “Doleantie” (“Angústia”) eram uma segunda secessão de igrejas da Igreja Reformada na Holanda. Essas igrejas, sob a liderança de Abraham Kuyper, em breve juntaram-se com as igrejas da Secessão de 1834 para formar as Igrejas Reformadas da Holanda (Gereformeerde Kerken em Nederland, ou GKN).

[2] Henry Elias Dosker, “Herman Bavinck,” Princeton Theological Review 20 (1922): 457-58.

[3] Dosker, “Herman Bavinck,” p. 459.

[4] John Bolt, “Introdução do Editor,” in Bavinck, Reformed Dogmatics, 1:12.

[5] Bavinck, Reformed Dogmatics, 1:112.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s