O legado de Herman Bavinck

bavinckHerman Bavinck: Uma ponte entre dois mundos

Um número de biógrafos têm escrito a respeito de Herman Bavinck como um homem entre dois mundos, o mundo do pietismo e o mundo do modernismo. Com uma espiritualidade moldada pela Igreja Cristã Reformada da Holanda, Bavinck procurou manter um equilíbrio saudável entre uma mente focada na realidade celestial e, ao mesmo tempo, presente neste mundo. Em face do declínio da fé e da moral na sociedade holandesa, essa ênfase na fé pessoal e na piedade promoveu renovação por toda a sociedade.

O confronto de Bavinck com o modernismo começou com seus estudos na universidade estadual em Leiden, que, em seguida, foi a sede da teologia modernista na Holanda. Lá ele foi exposto a uma abordagem rigorosamente histórica-empírica da filosofia e da história, que influenciou o modo como tratava seus amigos e inimigos teológicos, de maneira igual, justa e equilibrada.

Nos dias de Bavinck, estes dois mundos colidiram. A colisão envolveu as relações entre fé e razão, revelação e ciência, religião e filosofia. Os frutos do Iluminismo estavam sendo vendidos por todo o lado – o anti-sobrenaturalismo, a negação do transcendente, do miraculoso, da fé como uma fonte de conhecimento. Por seu exemplo e por suas publicações, Bavinck procurou incentivar seus companheiros de fé reformada a viver essa fé no mundo moderno.

O ‘Neo’ no Neo-Calvinismo de Bavinck

O termo neo-Calvinismo fala sobre a restauração do calvinismo na Holanda dos séculos 19 e 20, conduzida por Abraham Kuyper, F. L. Rutgers, e Herman Bavinck, e continuada por seus seguidores ao redor do mundo. Naturalmente, tal restauração é mais do que repristinação, ou seja, ela não se limitou a apenas reproduzir formas e formulações passadas.

Quando Bavinck entrou em cena nos últimos vinte anos do século 19, o evolucionismo e o naturalismo tinham começado a dominar as ciências. O pensamento e a filosofia de Ernst Troeltsch, Charles Darwin, Karl Marx, Leo Tolstoy, Immanuel Kant, Friedrich Schleiermacher, e similares sócio-políticos, tinham conseguido estatura e aceitação internacional. Assim, uma vez que a aplicação da doutrina reformada a estas questões era algo novo, as reflexões teológicas e filosóficas de Bavinck e seus contemporâneos constituíram uma nova fase na história do Calvinismo.

Em sua aplicação do Calvinismo a estes problemas modernos, Bavinck evita argumentações simplistas e fundamentalistas. Ele era totalmente familiarizado tanto com a história da doutrina reformada quanto com a história de seus adversários. A sua familiaridade astuta com a filosofia e com as teorias científicas de seu próprio tempo o levou a uma avaliação excepcionalmente equilibrada delas. Em vez de isolar e distanciar a teologia das questões filosóficas de sua época, Bavinck procurou integrar tais questões em sua formulação da doutrina reformada e da vida.

Por exemplo, Bavinck gostava das noções de relações “orgânicas” e de “organismo”, em referência aos órgãos da realidade. Talvez a chave para a compreensão e aplicação dessas noções é a premissa de que a graça divina não elimina a natureza, mas a restaura a serviço de Deus. A expressão “Graça restaura natureza” se tornou um dos princípios amplamente usados por Bavinck em todas as áreas da doutrina e da vida, incluindo a inspiração orgânica da Escritura, o organismo da Trindade divina, e a igreja como organismo.

Outro exemplo do “neo” no Neo-calvinismo de Bavinck é sua discussão sobre a doutrina bíblica da criação, encontrada no volume 2 de sua Dogmática Reformada. Confrontado com a teoria da evolução e várias tentativas de harmonizar os resultados da ciência moderna com o relato bíblico da criação, Bavinck defendeu a legitimidade do método científico aplicado em seu próprio campo, enquanto que, ao mesmo tempo, defendeu a confiabilidade histórica da criação relatada em Gênesis 1. Em relação ao tempo e à natureza dos dias da criação, as várias edições da Dogmática Reformada de Bavinck demonstram flexibilidade no que diz respeito à interpretação bíblica. Na primeira edição, ele expressou simpatia na visão dos dias como períodos de tempo. Na segunda edição, ele sugeriu que os três primeiros dias foram extraordinários dias cósmicos, mantendo aberta a possibilidade de que o segundo conjunto de três dias também foram extraordinários. Ele insistiu repetidas vezes que a palavra “dia” em Gênesis 1 denota um dia extraordinário, uma jornada de trabalho de Deus. Além disso, a queda no pecado introduziu alterações cósmicas de tal natureza que a situação após a queda não pode ser simplesmente projetada de volta ao tempo antes da queda. Bavinck posteriormente abandonou a visão de que os dias da criação eram ‘períodos de tempo’, mas mesmo assim ele continuou a falar deles como dias extraordinários, como os dias de trabalho de Deus.

Finalmente, o “neo” do neo-Calvinismo de Bavinck é visível na consciência cultural incorporada em seu trabalho e escritos. Ele saiu de uma postura cultural mais anabatista, que prevalecia entre os reformados na Holanda. Como um filho das igrejas nascidas na Secessão de 1834, Bavinck foi criado entre eles, e mais tarde pastoreou os membros da igreja que tinham pouco interesse positivo na educação, política, política social e cultura. Esse filho da Secessão, que tinha sido treinado entre os modernistas em Leiden, gastou sua vida profissional procurando aplicar os princípios da religião cristã na vida pública, científica e cultural. Mais tarde, Bavinck tornou-se ativo na política e foi eleito para servir no governo nacional holandês de 1911 até sua morte. Ali, Bavinck conduziu a nação em uma reforma na educação, e guiou seus compatriotas em uma reflexão cuidadosa sobre o problema da guerra. Seu interesse no desenvolvimento de uma abordagem cristã para a sociedade teve como fruto textos sobre a família cristã, o papel das mulheres na sociedade moderna, e o sufrágio feminino.

Edificando sobre o legado de Bavinck

A relevância duradoura da vida e obra de Herman Bavinck encontra-se no desenvolvimento – dentro do contexto dessas discussões modernas – de uma resposta calvinista pressuposicional positiva nos campos da ciência, da educação, da política social e da psicologia. Bavinck contribuiu para a formação do que veio a ser chamado de ‘cosmovisão reformada’.

Duas características dessa cosmovisão reformada merecem o nosso compromisso e imitação nos dias de hoje. A primeira é a constante atenção de Bavinck ao desenvolvimento histórico da teologia em geral e da doutrina reformada em particular, especialmente em termos de fontes bíblicas e confessionais da dogmática. A segunda característica é a sua abertura e coragem para interagir e endereçar o evangelho aos problemas levantados pela ciência e pela cultura moderna.

Que o Senhor conceda aos herdeiros do legado de Herman Bavinck, por sua misericórdia, a mesma erudição bíblica e coragem para agirmos em nossa geração!

Nelson D. Kloosterman. Traduzido por Thiago Machado Silva.

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