A teologia de “Stranger Things”

strangerthingsEm seu livro preeminente sobre pregação, “Telling the truth” [Dizendo a verdade], Frederick Buechner escreveu: “Se o mundo do conto de fadas e os nossos vislumbres dele aqui e ali são apenas um sonho, eles são um dos sonhos mais inesquecíveis e poderosos que o mundo jamais sonhou”.

Na verdade, o conto de fadas tem persistido de um simples contar histórias à literatura, cinema e televisão, precisamente porque ele captura fielmente não apenas a realidade em que vivemos, mas o futuro que esperamos. Histórias retratadas com comédia, tragédia, conflito e solução servem como indicadores para os nossos mais profundos anseios, medos e aspirações. Mesmo quando eles oferecem entretenimento e escape, os contos de fadas são ferramentas pedagógicas extremamente valiosas.

Há muitas séries de TV no ano passado em que esta realidade é mais explícita e mais clara do que na série “Stranger Things”. Escrito e dirigido pelos irmãos Duffer, Matt e Ross, a série do Netflix é em parte uma série de terror e em parte um conto de fada mais amadurecido. De maneira geral, a narrativa conta sobre o desaparecimento de uma criança de uma pequena cidade e a longa busca para trazê-la de volta para a casa, um esforço que envolve monstros e uma menina com poderes telecinéticos.

Uma homenagem a década de 1980 em configuração, design e tom emocional, Stranger Things apresenta um grupo de garotos desajustados e estranhos como os heróis, um enredo imediatamente reconhecível para uma geração que cresceu com as obras de Steven Spielberg e Stephen King. Como Emily Nussbaum escreveu no The New Yorker, “É um retrocesso aos tempos mais simples, com heróis, vilões e monstros.” E, no entanto, o show está longe de ser mera nostalgia. Como Nussbaum observa: “[o seriado] é assombroso, e tem uma relação rara tanto com a dor adulta quanto com o sofrimento da infância. É uma série original … Os flashbacks são sobre a vulnerabilidade, sobre como as pessoas estão machucadas em locais que ninguém pode ver “.

Essa interação contínua entre inocência e terror, redenção e perda é o que faz de Stranger Things uma série tão fascinante. As crianças da série são forçadas a confrontar a escuridão a qual os adultos são incapazes de protegê-las, enquanto os adultos são reduzidos à uma fé infantil em uma realidade que eles são incapazes de controlar. Temas como divórcio, a morte, abuso e abandono são tecidos em cada episódio. E é precisamente esta vontade de não recuar e dizer a verdade que faz a série ser teologicamente interessante de maneiras muito mais complexas do que simplesmente explorar a divisão entre luz e trevas.

Para os cristãos, Stranger Things pode recordar a obra de Geerhardus Vos e George Eldon Ladd, que descreve uma visão do reino em que a morte de Cristo na cruz é vista como o início de seu reinado universal sobre toda a criação. Cristo venceu a morte, o pecado e o mal. E, no entanto, apesar de sua vitória, o reino de Deus continua a confrontar essas forças malignas até Jesus voltar novamente e inaugurar um novo céu e uma nova terra, onde o seu reinado não terá fim e o pecado e o mal serão completamente derrotados. Hoje, nós vivemos, conforme diz Geerhardus Vos, “entre o já e o ainda não”.

Stranger Things reflete essa teologia do reino, e ao fazer isso, se afasta dos contos de fadas clássicos com seus finais “… e viveram felizes para sempre…”. Em contraste com tais contos tradicionais, os irmãos Duffer contam uma história em que a esperança e a perda, a vida e a morte, a alegria e a dor coexistem. Eles parecem fazer parte da tradição de J.R.R. Tolkien, que disse: “O reino do conto de fadas é amplo e profundo, alto e cheio de muitas coisas… beleza encantadora, perigo sempre presente; alegria e tristeza afiadas como espadas”.

Isso é o que torna Stranger Things interessante de assistir. Não tanto por sua música estranha e tensa, ou suas sequências fantásticas, mas por seu retrato do mundo real em que vivemos: o já e o ainda não. Um mundo onde algumas crianças são encontradas, enquanto outras estão perdidas. Um mundo onde o mal é derrotado, mas ainda aguarda na escuridão “por um momento mais oportuno” para atacar novamente. Um mundo que já foi vencido por Cristo, e agora aguarda seu retorno, quando ele irá destruir completamente todo o mal e o bem prevalecerá eternamente.

Thiago Machado Silva, baseado na reflexão de Stephen Woodworth.

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